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INICIAR EM IFÁ: função exclusiva de um Babaláwo ou Ìyánifá

27/08/2015

Por Mario Filho (Oníwindé Ifáṣọlá Ifárinú Olúsọjí Oyékàlẹ̀)*
Àbọrú, Àbọyè o!

Em um verso do Odù Ọ̀sá Òtúrá Ifá diz, já traduzido (Popoola, 2011):

Ọ̀sá Aláwo pergunta: “o que é verdade?”

Eu também pergunto: “o que é verdade?”

A verdade é o Olúwo do céu [mundo espiritual], que protege a Terra.

A verdade é o conhecimento invisível de Olódùmarè

Ọ̀sá Aláwo pergunta: “o que é verdade?”

Eu também pergunto: “o que é verdade?”

Ọ̀rúnmìlà diz que a verdade é o caráter de Olódùmarè

A verdade é a palavra inalterável, Ifá é a verdade

A verdade é a palavra indestrutível

A verdade é o poder que subjuga todos os demais poderes

A bênção perpétua consultou Ifá para o Planeta Terra

Aconselhou que todos os seus habitantes fossem verdadeiros, verazes e justos

Aquele que for verdadeiro receberá as bênçãos dos Irúnmọlẹ̀ [conjunto de seres espirituais, entre os quais estão os Òrìṣà]

 

Como se pode ver neste verso, Deus nos ordena que sejamos verdadeiros, verazes e justos. Se isso é obrigatório a todos os seres humanos, o que se dirá, então, dos Babaláwo (Sacerdotes de Ifá), que são os representantes de Ọ̀rúnmìlà na Terra (Àyé) e custódios da tradição de Ifá que, segundo a tradição Yorùbá (Nigéria), é a palavra de Deus?

A iniciação em Ifá se chama Ìtẹ̀fá (Ìtẹ̀nifá), que podemos traduzir como “colocar os pés (pisar) em Ifá”. Aqueles que passaram por esse ritual sabem do que estou falando.

As pessoas que passaram pelo Ìṣẹfá (Ifá Siṣẹ) não são iniciadas em Ifá, tão-somente receberam a Ọwọ́ Ifá Ọ̀kan (primeira mão de Ifá). Nessa cerimônia o “assentamento” de Ifá é entregue à pessoa, que passará a cultuar Ifá.

Os homens que passaram pelo Ìtẹ̀fá (Ìtẹ̀nifá) são chamados de Babaláwo e as mulheres que passaram pela mesma cerimônia são chamadas de Ìyánifá.

Há dois tipos de Babaláwo: os que estiveram no bosque sagrado (Igbo Odù), onde foram apresentados a Ìyà Odù (e serão chamados de Awo Ọlọ́dù)  e os que não estiveram (e serão chamados de Awo Ẹlẹ́gán). O ritual de entrar no bosque sagrado e ser apresentado a Ìyà Odù se chama Ìtẹ̀lodù. Não discorrerei, neste artigo, sobre as diferenças de cada tipo de Babaláwo, bem como suas funções, mas é necessário que se explique que o Ìtẹ̀lodù faz parte do Ìtẹ̀fá quando o iniciado tem como destino ser consagrado como Awo Ọlọ́dù.

Os Babaláwo e Ìyánifá podem realizar o Ìṣẹfá, ou seja, podem dar a qualquer pessoa a Ọwọ́ Ifá Ọ̀kan (primeira mão de Ifá), ambos podem, também, submeter uma pessoa à cerimônia de Ìtẹ̀fá, mas somente um Awo Ọlọ́dù pode submeter alguém ao Ìtẹ̀lodù. Além disso, para realização do Ìtẹ̀nifá (Ìtẹ̀fá) é necessária a presença de, pelo menos, três Babaláwo, sendo que é obrigatório que um deles seja Awo Ọlọ́dù, e uma Ìyánifá e todos terão funções específicas durante os rituais.

Alguém pode questionar: “por que ele está escrevendo sobre isso?”. Respondo: infelizmente há pessoas que não passaram pelo bosque sagrado, não foram apresentados a Ìyà Odù, que não são Awo (outra denominação para Babaláwo ou Ìyánifá) e começaram, há algum tempo, a escrever sobre Ifá, arvorando-se de um conhecimento que não possuem, que não fizeram nenhuma iniciação em Ifá, apenas passaram pelo Ìṣẹfá. Outros creem que foram iniciados em Ifá, ou seja, que passaram pelo Ìtẹ̀nifá (Ìtẹ̀fá) e pelo Ìtẹ̀lodù, mas foram apenas enganados, pois aqueles que lhes transmitiram essa “iniciação” não haviam passado por essas cerimônias.

Há alguns requisitos para que um Babaláwo inicie (faça o Ìtẹ̀fá) em alguém:

– ele precisa ter recebido o assentamento de Ìyà Odù ou algum dos Babaláwo presentes à cerimônia o tenha recebido e o leve para o local da cerimônia;

– ele precisa ter o Ọ̀pá Ọ̀rẹ̀rẹ̀ (ou Ọ̀pá Osùn) que é o cajado que representa o cajado de Ọ̀rúnmìlà; e

– ele precisa ter a companhia de dois Babaláwo (sendo que pelo menos um deles deverá ser Awo Ọlọ́dù) e de uma Ìyánifá, que dominem todas as fases do processo iniciatório.

Como disse anteriormente temos que ser verazes. Não cabe mentira no caminho de Ifá!

 

Kí Olódùmarè àti Ọ̀rúnmìlà á gbè wa o, láíláí!

Ìṣeṣẹ́ Lágbà pare ti!

Àṣẹ wa, Ire o!

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  • Sacerdote afro-religioso. É dirigente do Templo Espiritual Pantera Negra e do Ilé Ifá Ajàgùnmàlè Olóòtọ́ Aiyé. Bacharel e Mestre em Ciências Policiais de Segurança e Ordem Pública,  pelo Centro de Altos Estudos de Segurança; Especialista em Políticas Públicas de Gestão em Segurança Pública, Especialista e Mestre em Ciência da Religião (todas pela PUC/SP), Especialista em História da África e do Negro no Brasil pela UCAM/RJ. Professor do Programa de Pós Graduação (Mestrado e Doutorado) do Centro de Altos Estudo em Segurança. Endereço eletrônico: ezezide@gmail.com
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