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15 Fatos sobre as Religiões Tradicionais Africanas

29/06/2017

15 Fatos sobre as Religiões Tradicionais Africanas

Por Jacob K. Olupona[1]

Tradução: Mário Filho[2]

  1. Religião Tradicional Africana (RTA) se refere às religiões indígenas ou autóctones dos povos africanos. Ela trata de sua cosmologia, práticas rituais, símbolos, artes, sociedade, e assim por diante. Por ser a religião um modo de vida, relaciona-se com a cultura e a sociedade, na medida em que afetam a visão de mundo dos povos africanos.

  2. As RTA não estão estagnadas, mas são altamente dinâmicas e reagem constantemente a várias influências, como a velhice, a modernidade e os avanços tecnológicos.

  3. As RTA são menos tradições de fé e mais tradições vividas. Elas estão menos preocupados com doutrinas e muito mais com rituais, cerimônias e práticas vividas.

  4. Ao abordar a religião em África, os estudiosos geralmente falam de uma “herança tripla”, que é o legado triplo da religião indígena, do islamismo e do cristianismo que muitas vezes são encontrados lado a lado em muitas sociedades africanas.

  5. Enquanto aqueles que se identificam como praticantes das RTA são muitas vezes minoria, outros que se identificam como muçulmanos ou cristãos estão envolvidos em religiões tradicionais em um grau ou outro.

  6. Embora muitos africanos tenham se convertido ao islamismo e ao cristianismo, as RTA participam da vida social, econômica e política das sociedades africanas.

  7. As RTA se tornaram globais! O tráfico transatlântico de escravos levou ao crescimento das tradições de inspiração africana nas Américas, como o Candomblé no Brasil, a Santeria em Cuba ou Vodu no Haïti. Além disso, em muitos lugares como nos EUA e no Reino Unido se converteram em lugares onde há a presença de várias religiões tradicionais africanas, e a importância da diáspora para essas religiões está crescendo rapidamente. As religiões africanas também se tornaram uma atração importante para aqueles que viajam à África em peregrinações por causa do alcance global dessas tradições.

  8. Há uma série de grupos e movimentos de revitalização cujo objetivo principal é garantir que a prática dos adeptos da religião indígena africana, hoje ameaçada, sobreviva. Estes podem ser encontrados em todas as Américas e Europa.

  9. As preocupações com saúde, prosperidade e procriação são muito importantes para o núcleo das religiões africanas. É por isso que eles desenvolveram instituições para a cura, comércio e o bem-estar geral de seus próprios praticantes, bem como dos adeptos de outras religiões também.

  10. As RTA não se baseiam na conversão como o Islã e o Cristianismo. Elas tendem a propagar a coexistência pacífica e promovem boas relações com os membros de outras tradições religiosas que as cercam.

  11. Hoje, como tradição minoritária, as RTA sofrem imensamente com os abusos dos direitos humanos. Isto é baseado em equívocos que afirmam que essas religiões são antitéticas e contrárias à modernidade. De fato, as RTA forneceram o modelo para conversas robustas e pensamentos sobre as relações comunitárias, o diálogo inter-religioso, a sociedade civil e a religião civil.

  12. As mulheres desempenham um papel fundamental na prática das RTA, sendo que as relações e dinâmicas internas de gênero são muito profundas. Existem muitas divindades femininas, juntamente com os homólogos masculinos. Existem sacerdotisas, divinadoras e outras figuras, sendo que muitas estudiosas feministas extraíram dessas tradições modelos de defensa dos direitos das mulheres e o lugar do feminino nas sociedades africanas. A abordagem tradicional das religiões indígenas africanas ao gênero é de complementaridade, na qual uma confluência de forças masculinas e femininas deve operar em harmonia.

  13. As RTA contêm uma grande sabedoria e uma visão sobre como os seres humanos podem viver e interagir melhor com o meio ambiente. Dada a nossa atual crise cológica iminente, as RTA têm muito para oferecer aos países africanos e ao mundo em geral.

  14. As RTA estabelecem fortes ligações entre a vida humana e o mundo dos antepassados. Os seres humanos são, assim, capazes de manter relações constantes e simbióticas com seus antepassados, que são entendidos como intimamente preocupados e envolvidos nos assuntos cotidianos de seus descendentes.

  15. Ao contrário de outras religiões do mundo que se baseiam em livros sagrados, as fontes orais formam o núcleo das RTA. Essas fontes orais estão estreitamente imbricadas nas artes, na estrutura política e social e na cultura material. A natureza oral dessas tradições permite uma grande adaptabilidade e variação dentro de e entre as RTA. Ao mesmo tempo, formas de oralidade – como a tradição de Ifá entre os yorùbá – podem servir como importantes fontes à compreensão de seus adeptos, bem como a visão de mundo dessas religiões podem servir de análises às escrituras, como a Bíblia ou o Alcorão.

 

Original em: https://blog.oup.com/2014/05/15-facts-on-african-religions/

 

[1] A biografia do autor pode ser vista em: http://hwpi.harvard.edu/files/hds/files/jacob_olupona_cv.pdf

[2] Sacerdote Afro-brasileiro. É dirigente do Templo Espiritual Pantera Negra e do Templo de Ifá Ajàgùnmàlè, o Veraz. É Mestre e especialista em Ciências da Religião pela PUC/SP.

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Jogo de Búzios se ensina em curso?

29/06/2017

“Jogo de Búzios” se ensina em curso?[1]

Por Mário Filho[2]

 

Antes de dar a resposta à pergunta, quero fazer algumas considerações. Se não tiver paciência de lê-las, basta ir ao final do texto para ver a resposta!

Há alguns anos, uma pessoa que me é muito cara, Irmã em Orixá, teve o seguinte diálogo comigo:

Ela: “- Bàbá, o Sr. conhece o livro do José Beniste, Jogo de Búzios?”

Eu: “- Conheço, eu o tenho!”

Ela: “- O livro é bom?”

Eu: “- Como assim?”

Ela: “- Dá para aprender a jogar búzios por esse livro?”

Eu: “- Mas por que você quer um livro para aprender a jogar búzios?”

Ela: “- É porque o Pai de Santo só vai me dar a ‘mão de búzios’ se eu provar que sei as quedas!”

Eu: “- Mas ele não te ensinou?”

Ela: “- Não, ele me mandou procurar um livro que ensinasse jogo para que eu conheça as quedas, para só depois me ensinar como ele joga. O Sr. pode me emprestar esse livro?”

Eu: “- Claro que posso.”

Encerremos assim o diálogo.

 

Mais ou menos, na mesma época, tive outro diálogo com um Babalorixá, com a obrigação de 14 anos feita (em uma Casa de Candomblé tradicionalíssima do Rio de Janeiro) e já com alguns “Filhos de Santo” iniciados e exímio na realização de ebós :

Ele: “- Pai, como é que o Sr. joga búzios?”

Eu: “- Por Odù!”

Ele: “- Como é que se joga assim, por Odù? O que é Odù?”

Eu: “- Odù é a formação dos búzios na peneira. O número de búzios abertos que saem na peneira corresponde a um Odù.”

Ele: “- E como é que o Sr. sabe o que cada uma das quedas quer dizer?”

Eu: “- Pelo estudo! Cada Odù corresponde àquilo que a pessoa deve fazer em sua vida, as oferendas que deve fazer, o que seguir e assim por diante. Eu estudei e continuo estudando sobre o que significa cada Odù, de forma a poder entender o que acontece com a pessoa e poder responder às perguntas dela.”

Continuando eu o questionei: “- Mas como é que o Sr. joga búzios, como o Sr. sabe qual é o Orixá da pessoa, quais são as oferendas que deve fazer, como ela pode sair da situação em que se encontra?”

Ele: “Pela intuição! Eu uso os búzios apenas para não me distrair. Eu jogo os búzios e espero vir alguma coisa na minha cabeça, alguma intuição!”

Eu: “- O Sr. não interpreta os Odùs?”

Ele: “- Não, aliás eu nem sei o que cada uma das quedas quer dizer! Eu nuca aprendi isso!”

Eu: “- O Sr. não aprendeu com o seu Pai de Santo a jogar búzios? O Sr. não teve que mostrar seu conhecimento das quedas quando deu sua obrigação de 07 anos?”

Ele: “- Sim, ele me ensinou a jogar como eu te falei. Ele me mandava jogar os búzios e esperar vir a intuição e é assim que eu faço! Quando tomei a obrigação de 07 anos e recebi meus direitos, foi assim que fiz!”

Eu: “- Entendi!”

Também encerramos assim esse diálogo.

 

Coloquei dois exemplos diferentes para que o leitor possa entender o que quero dizer com esse texto.

O oráculo conhecido no Brasil como “Jogo de Búzios” e na Nigéria “Owó Ẹyọ Mẹ́rìndílógún” (dezesseis búzios) é uma forma oracular da tradição afro-brasileira e de matriz africana, sendo uma das formas pela qual as pessoas podem consultar Ọ̀rúnmìlà e/ou outros Orixás, que está inserido no sistema divinatório Yorùbá. Nessas consultas, que podem ser feitas para a própria pessoa que joga ou para qualquer outra, o Sacerdote tentará “ver”/”olhar” a mensagem que o Odù formado transmite a ele. Para que o Sacerdote saiba o que quer dizer aquele Odù ele deve estudar muitos anos, de forma a aprender, sem dúvidas, o que cada um dos Odùs significa. Não há, para a consulta ao oráculo, nenhum tipo de transe. Não se espera ouvir alguma “voz do além”, não se espera a “incorporação” de alguma “entidade espiritual” para que ela interprete o que o Odù quer dizer, enfim, só é possível jogar búzios quando se sabe o que cada Odù quer dizer por meio das histórias (itàn) que estão ligadas a ele, bem como as diversas prescrições que ele traz.

Outra pergunta, então, surge: “- Como se pode aprender a interpretar os Odùs?” Respondo: há três maneiras! A primeira é aprender com seu Sacerdote, se ele souber e se ele se dispõe e quer ensiná-lo; a segunda é fazendo um curso com quem saiba, comprovadamente; e a terceira é adquirindo um bom livro. Vamos avaliar cada uma dessas maneiras:

1ª – Aprender com seu Sacerdote: creio ser essa a melhor maneira; entretanto dois problemas surgem: o Sacerdote se propõe a ensinar? ou o Sacerdote sabe o que ensinar? É necessário que as duas perguntas sejam respondidas afirmativamente, a fim de que o iniciado possa realmente aprender. Sabe-se, infelizmente, que muitos Sacerdotes não querem ou não podem ensinar o Jogo de Búzios aos seus “Filhos de Santo”. Não vou discutir as razões para isso, mas é uma realidade com a qual temos que lidar;

2ª – Aprender por meio de cursos: também creio ser uma boa proposta essa forma de aprendizado; entretanto, é necessário que se saiba quem ministrará o curso e sua experiência como divinador (olhador). Não conheço todos os cursos que são ministrados, mas temos, como exemplo, os cursos que eram ministrados pela saudosa Ialorixá Sandra Epega, bem como os cursos que são ministrados pelos Sacerdotes nigerianos Sikiru Salami (Prof. King) e Ogunjimi ou pelo Babalorixá Marcelo Monteiro;

3º – Adquirindo um bom livro: creio ser essa alternativa uma boa ideia; entretanto, é necessário que se saiba o que é um bom livro sobre o Jogo de Búzios e isso eu não posso lhes dizer, cada um terá que encontrar o seu próprio parâmetro de avaliação. Há alguns livros que conheço (e alguns deles eu os tenho) cujos autores se esforçaram em escrever sobre o Jogo de Búzios, entre eles posso citar: José Beniste (Jogo de Búzios: um encontro com o desconhecido, Ed. Bertrand Brasil)

, Agenor Miranda Rocha (Caminhos de Odu, Ed. Pallas), Marcelo Monteiro (Mérìndilogun: curso teórico e prático de jogo de búzios, s/ed.), Júlio Santana Braga (O Jogo de Búzios: Um Estudo de Adivinhação no Candomblé, Ed.Brasiliense), Tancredo da Silva Pinto (O Jogo dos Búzios, Ed. Eco), Fernandes Portugal (Manual prático do jogo de búzios por Odù e pelo jogo da Oxum: preceitos, iniciação e vivência, Ed. Cristális), Jorge Alberto Varanda (O Destino Revelado No Jogo De Búzios, Ed. Eco), Adilson Antônio Martins (O Jogo de Búzios por Odu, Ed. Pallas), Ronaldo Antônio Linares (Jogo de Búzios, Ed. Madras), Nívio Ramos Salles (Búzios: a Fala dos Orixás, Ed. Pallas) que deram sua interpretação de cada um dos Odùs, segundo aquilo que aprenderam e a visão da tradição em que estão inseridos e seguem. Cito, também, os autores: Willian Russel Bascom (Sixteen Cowries: Yoruba Divination from Africa to the New World, Ed. Indiana Universtity Press), Awo Falokun Fatunmbi (Merindinlogun: Orisa Divination Using 16 Cowries, Ed. CIPP) e Nia Jones-Morgan (Merindilogun Folktales: The Morals of the Patakis Relating Today’s Lifestyles, Ed. Artistic Engine LLC), Àbíkẹ́ Adéṣuyì (The Practice of Eerindinlogun Divination of Oore Yeye Osun Deity, Ed. Hosanna Printers) em inglês, que também trazem informações sobre o Jogo de Búzios.

Por sorte, tive um Sacerdote, Bàbá José Roberto de Lagorô, o qual morou quatro anos na Nigéria, especificamente em Ọ̀yọ́, que me ensinou a jogar búzios. Mesmo assim, fiz dois cursos de aperfeiçoamento com o Bàbá King, um curso com Bàbá Ogunjimi e comprei quatro livros de Sacerdotes Yorùbá que escreveram sobre o Owó Ẹyọ Mẹ́rìndílógún, a fim de melhor conhecer e assim interpretar o que cada um dos Odùs significam e transmitem.

Em face do exposto, não resta dúvidas que é possível sim aprender a jogar búzios em cursos. Essa é uma forma de se transmitir um ensinamento vivo, que é acessível a qualquer iniciado em Orixá. Além disso, ministrar cursos em que se aborde o que é o Jogo de Búzios, o que significam os Odùs, quais são as oferendas recomendadas, o que se deve ou não fazer etc., como informação, para esclarecimento das pessoas, não é nenhuma “quebra” de juramentos ou exposição de “segredos”, pois como já mostrei há inúmeros livros que tratam do assunto, cujos autores são referência ao Candomblé e à Umbanda.

Além disso, temos na Internet um sem-número de apostilas que ensinam o jogo de búzios, as quais são acessíveis a qualquer um, basta uma procura pela Rede.

Assim, não seja preconceituoso. Não condene aqueles que querem ensinar as pessoas, pois isso é um desserviço, não acrescenta nada. Se tiver críticas a fazer, elas são bem vindas, mas conheça, primeiro, quem está ministrando o curso, veja sua trajetória iniciática, comprove seu conhecimento, para depois apontar os erros, caso os encontre. Não meça as pessoas pela sua régua!

 

Obrigado,

Mário Filho

 

[1] Esse artigo é uma revisão do publicado em 2014.

[2] Sacerdote Afro-brasileiro. Dirigente do Templo Espiritual Pantera Negra e do Templo de Ifá Ajàgùnmàlè, o Veraz. É Mestre e especialista em Ciências da Religião pela PUC/SP.

Como se dá a iniciação a Òrìṣà (Orixá) na Religião Tradicional Yorùbá (RTY)

21/06/2017


Como se dá a iniciação a Òrìṣà (Orixá) na Religião Tradicional Yorùbá (RTY)

Por Mario Filho (Awo Oníwindé Ifáṣọlá Ifárinú Olúsọjí Oyékàlẹ̀)

É comum no terceiro dia de nascimento a família do recém-nascido levá-lo a uma consulta com um Sacerdote de Ifá (Babaláwo) ou um(a) Sacerdote(isa) de Òrìṣà (Babalórìṣà / Ìyálórìṣà). Nessa consulta, chamada de Àkọsẹ̀j̣ayé o Sacerdote falará sobre o destino da criança, suas proibições alimentares e de vestimentas, as profissões que lhe trarão mais sucesso etc.

Apurará, também, os Òrìṣà para os quais o recém-nascido deverá ser iniciado (isso dependerá da família e do local onde será feito o Àkọsẹ̀j̣ayé, pois cada família, cidade, comunidade tem sua própria dinâmica) ou se deverá ser iniciada em Ifá, Egúngún, Orò etc.

Assim, nessa primeira consulta, o Sacerdote fará as previsões para a criança e lhe dará um nome, que será anunciado publicamente no 7º dia, se for homem, no 8º dia, se forem gêmeos, ou no 9º dia, se for mulher. Essa cerimônia se chama Ìsọmọlórúkọ́ (cerimônia de dar o nome) e nela está incluso o ritual do Ẹsẹ̀ntáyé (colocar os pés no mundo). O nome que ela receberá será com base na consulta que o Sacerdote de Ifá ou de Òrìṣà fez, buscando a adequação de seu destino ao nome.

O recém-nascido, quando se tornar adulto, poderá, se quiser, fazer as iniciações recomendadas pelo Sacerdote no Àkọsẹ̀j̣ayé, mas isso não lhe será exigido por ninguém, a não ser que haja uma questão da comunidade em que ele está inserida, na qual a iniciação a Ifá, Òrìṣà ou a qualquer outro Irúnmọlẹ̀ faça parte da tradição daquela comunidade.

Entre os praticantes da RTY não há consagrações de 1, 3, 7, 14 e 21 anos.

Nas famílias em que as pessoas se iniciam para mais de um Òrìṣà, não há uma “disputa pelo Orì”, mesmo porque o Orì não “tem dono”, se não o próprio Olódùmarè.

Afirmar se é filho de Òrìṣà tal ou qual, para os seguidores das RTY, vai depender da família ou comunidade em que a pessoa se encontra. Há as famílias que são consideradas descendentes de um determinado Òrìṣà e, nesse caso, ele será o Òrìṣà tutelar da pessoa. Em outros casos isso se dará pelo Àkọsẹ̀j̣ayé e em outras em razão da inciação em Ifá (Ìtẹ̀fá), quando se saca o Odù da iniciação em Ifá, em que será apontado o que a pessoa deverá ou não fazer.

Espero ter ajudado!

Ire gbogbo o!

INICIAR EM IFÁ: função exclusiva de um Babaláwo ou Ìyánifá

27/08/2015

Por Mario Filho (Oníwindé Ifáṣọlá Ifárinú Olúsọjí Oyékàlẹ̀)*
Àbọrú, Àbọyè o!

Em um verso do Odù Ọ̀sá Òtúrá Ifá diz, já traduzido (Popoola, 2011):

Ọ̀sá Aláwo pergunta: “o que é verdade?”

Eu também pergunto: “o que é verdade?”

A verdade é o Olúwo do céu [mundo espiritual], que protege a Terra.

A verdade é o conhecimento invisível de Olódùmarè

Ọ̀sá Aláwo pergunta: “o que é verdade?”

Eu também pergunto: “o que é verdade?”

Ọ̀rúnmìlà diz que a verdade é o caráter de Olódùmarè

A verdade é a palavra inalterável, Ifá é a verdade

A verdade é a palavra indestrutível

A verdade é o poder que subjuga todos os demais poderes

A bênção perpétua consultou Ifá para o Planeta Terra

Aconselhou que todos os seus habitantes fossem verdadeiros, verazes e justos

Aquele que for verdadeiro receberá as bênçãos dos Irúnmọlẹ̀ [conjunto de seres espirituais, entre os quais estão os Òrìṣà]

 

Como se pode ver neste verso, Deus nos ordena que sejamos verdadeiros, verazes e justos. Se isso é obrigatório a todos os seres humanos, o que se dirá, então, dos Babaláwo (Sacerdotes de Ifá), que são os representantes de Ọ̀rúnmìlà na Terra (Àyé) e custódios da tradição de Ifá que, segundo a tradição Yorùbá (Nigéria), é a palavra de Deus?

A iniciação em Ifá se chama Ìtẹ̀fá (Ìtẹ̀nifá), que podemos traduzir como “colocar os pés (pisar) em Ifá”. Aqueles que passaram por esse ritual sabem do que estou falando.

As pessoas que passaram pelo Ìṣẹfá (Ifá Siṣẹ) não são iniciadas em Ifá, tão-somente receberam a Ọwọ́ Ifá Ọ̀kan (primeira mão de Ifá). Nessa cerimônia o “assentamento” de Ifá é entregue à pessoa, que passará a cultuar Ifá.

Os homens que passaram pelo Ìtẹ̀fá (Ìtẹ̀nifá) são chamados de Babaláwo e as mulheres que passaram pela mesma cerimônia são chamadas de Ìyánifá.

Há dois tipos de Babaláwo: os que estiveram no bosque sagrado (Igbo Odù), onde foram apresentados a Ìyà Odù (e serão chamados de Awo Ọlọ́dù)  e os que não estiveram (e serão chamados de Awo Ẹlẹ́gán). O ritual de entrar no bosque sagrado e ser apresentado a Ìyà Odù se chama Ìtẹ̀lodù. Não discorrerei, neste artigo, sobre as diferenças de cada tipo de Babaláwo, bem como suas funções, mas é necessário que se explique que o Ìtẹ̀lodù faz parte do Ìtẹ̀fá quando o iniciado tem como destino ser consagrado como Awo Ọlọ́dù.

Os Babaláwo e Ìyánifá podem realizar o Ìṣẹfá, ou seja, podem dar a qualquer pessoa a Ọwọ́ Ifá Ọ̀kan (primeira mão de Ifá), ambos podem, também, submeter uma pessoa à cerimônia de Ìtẹ̀fá, mas somente um Awo Ọlọ́dù pode submeter alguém ao Ìtẹ̀lodù. Além disso, para realização do Ìtẹ̀nifá (Ìtẹ̀fá) é necessária a presença de, pelo menos, três Babaláwo, sendo que é obrigatório que um deles seja Awo Ọlọ́dù, e uma Ìyánifá e todos terão funções específicas durante os rituais.

Alguém pode questionar: “por que ele está escrevendo sobre isso?”. Respondo: infelizmente há pessoas que não passaram pelo bosque sagrado, não foram apresentados a Ìyà Odù, que não são Awo (outra denominação para Babaláwo ou Ìyánifá) e começaram, há algum tempo, a escrever sobre Ifá, arvorando-se de um conhecimento que não possuem, que não fizeram nenhuma iniciação em Ifá, apenas passaram pelo Ìṣẹfá. Outros creem que foram iniciados em Ifá, ou seja, que passaram pelo Ìtẹ̀nifá (Ìtẹ̀fá) e pelo Ìtẹ̀lodù, mas foram apenas enganados, pois aqueles que lhes transmitiram essa “iniciação” não haviam passado por essas cerimônias.

Há alguns requisitos para que um Babaláwo inicie (faça o Ìtẹ̀fá) em alguém:

– ele precisa ter recebido o assentamento de Ìyà Odù ou algum dos Babaláwo presentes à cerimônia o tenha recebido e o leve para o local da cerimônia;

– ele precisa ter o Ọ̀pá Ọ̀rẹ̀rẹ̀ (ou Ọ̀pá Osùn) que é o cajado que representa o cajado de Ọ̀rúnmìlà; e

– ele precisa ter a companhia de dois Babaláwo (sendo que pelo menos um deles deverá ser Awo Ọlọ́dù) e de uma Ìyánifá, que dominem todas as fases do processo iniciatório.

Como disse anteriormente temos que ser verazes. Não cabe mentira no caminho de Ifá!

 

Kí Olódùmarè àti Ọ̀rúnmìlà á gbè wa o, láíláí!

Ìṣeṣẹ́ Lágbà pare ti!

Àṣẹ wa, Ire o!

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  • Sacerdote afro-religioso. É dirigente do Templo Espiritual Pantera Negra e do Ilé Ifá Ajàgùnmàlè Olóòtọ́ Aiyé. Bacharel e Mestre em Ciências Policiais de Segurança e Ordem Pública,  pelo Centro de Altos Estudos de Segurança; Especialista em Políticas Públicas de Gestão em Segurança Pública, Especialista e Mestre em Ciência da Religião (todas pela PUC/SP), Especialista em História da África e do Negro no Brasil pela UCAM/RJ. Professor do Programa de Pós Graduação (Mestrado e Doutorado) do Centro de Altos Estudo em Segurança. Endereço eletrônico: ezezide@gmail.com

As “Umbandas” dentro da Umbanda

19/05/2015
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Este é um texto bastante explicativo sobre as diferentes manifestações de um fenômeno espiritual que acontece em solos brasileiros. Não concordo com muitas das coisas que estão aqui, não com relação ao escrito pelo autor, mas pela forma com que a Umbanda é trabalhada nas vertentes descritas.

Ainda não estão elencadas as novas manifestações da Umbanda, tais como a “Umbanda Astrológica”, “Umbanda Carismática”, “Umbanda Esotérica Ufológica” etc. Com o tempo, este artigo escrito por Renato Guimarães precisará ser ampliado.

Não podemos nunca esquecer que Umbanda é uma palavra africana, de origem já bastante conhecida, portanto há muitos erros no entendimento do que esse fenômeno espiritual representa.

Mas, vamos ao texto!

Original em: Registros de Umbanda, escrito por Renato Guimarães

 

As Umbandas dentro da Umbanda

Após pouco mais de 100 anos de fundação da Umbanda pelo Caboclo das Sete Encruzilhadas, essa religião cresceu e se diversificou, dando origem a diferentes vertentes que têm a mesma essência por base: a manifestação dos espíritos para a caridade.

O surgimento dessas diferentes vertentes é conseqüência do grau com que as características de outras práticas religiosas e/ou místicas foram absorvidas pela Umbanda em sua expansão pelo Brasil, reforçando o sincretismo que a originou e que ainda hoje é sua principal marca.

Embora essa classificação tenha sido elaborada por mim (ela não é fruto de um consenso entre os umbandistas e nem é adotada por outros estudiosos da religião), a mesma revela-se uma forma útil de condensar as diferentes práticas existentes, possibilitando um melhor estudo das mesmas.

Umbanda Branca e Demanda

Outros nomes: É também conhecida como: Alabanda; Linha Branca de Umbanda e Demanda; Umbanda Tradicional; Umbanda de Mesa Branca; Umbanda de Cáritas; e Umbanda do Caboclo das Sete Encruzilhadas.

Origem: É a vertente fundamentada pelo Caboclo das Sete Encruzilhadas, por Pai Antônio e Orixá Malê, através do seu médium, Zélio Fernandino de Morais (10/04/1891 – 03/10/1975), surgida em São Gonçalo, RJ, em 16/11/1908, com a fundação da Tenda Espírita Nossa Senhora da Piedade.

Foco de divulgação: O principal foco de divulgação dessa vertente é a Tenda Espírita Nossa Senhora da Piedade.

Orixás: Considera que orixá é um título aplicado a espíritos que alcançaram um elevado patamar na hierarquia espiritual, os quais representam, em missões especiais, de prazo variável, o alto chefe de sua linha. É pelos seus encargos comparável a um general: ora incumbido da inspeção das falanges, ora encarregado de auxiliar a atividade de centros necessitados de amparo, e, nesta hipótese fica subordinado ao guia geral do agrupamento a que pertencem tais centros. Acredita que existam 126 orixás, distribuídos em 06 linhas espirituais de trabalho. Os altos chefes de cada uma dessas seis linhas recebem o nome de um orixá nagô, embora não sejam entendidos como nas tradições africanas, existindo uma forte vinculação deles aos santos católicos.

Linhas de trabalho: Considera a existência de sete linhas de trabalho: de Oxalá (onde inclui os espíritos que se apresentam como Crianças), de Iemanjá, de Ogum, de Oxóssi, de Xangô, de Iansã e de Santo ou das Almas (onde inclui as almas recém-desencarnadas, os exus coroados, os exus batizados e as entidades auxiliares).

Entidades: Os trabalhos são realizados principalmente por Caboclos(as), Pretos(as) Velhos(as) e Crianças e não há giras para Boiadeiros, Baianos, Ciganos, Malandros, Exus e Pombagiras.

Ritualística: A roupa branca é a única vestimenta usada pelos médiuns durante as giras e encontra-se o uso de guias, imagens, fumo, defumadores, velas, bebidas e pontos riscados nos trabalhos, porém os atabaques não são utilizados nas cerimônias.

Livros doutrinários: Esta vertente usa os seguintes livros como principais fontes doutrinárias: “O livro dos espíritos”; “O livro dos médiuns”; “O evangelho segundo o Espiritismo”; e “O Espiritismo, a magia e as sete linhas de Umbanda”.

Umbanda Kardecista

Outros nomes: É também conhecida como: Umbanda de Mesa Branca; Umbanda Branca; e Umbanda de Cáritas.

Origem: É a vertente com forte influência do Espiritismo, geralmente praticada em centros espíritas que passaram a desenvolver giras de Umbanda junto com as sessões espíritas tradicionais. É uma das mais antigas vertentes, porém não existe registro da data e do local inicial em que começou a ser praticada.

Foco de divulgação: Não existe um foco principal de divulgação dessa vertente na atualidade.

Orixás: Nesta vertente não existe o culto aos Orixás nem aos santos católicos.

Linhas de trabalho: Nesta vertente não é utilizada essa forma de agrupar as entidades.

Entidades: Os trabalhos de Umbanda são realizados apenas por Caboclos(as), Pretos(as) Velhos(as) e, mais raramente, Crianças.

Ritualística: A roupa branca é a única vestimenta usada pelos médiuns durante as giras e não são encontrados o uso de guias, imagens, fumo, defumadores, velas, bebidas e atabaques.

Livros doutrinários: Esta vertente usa os seguintes livros como principais fontes doutrinárias: “O livro dos espíritos”; “O livro dos médiuns”; “O evangelho segundo o Espiritismo”; “O céu e o inferno”; e “A gênese”.

Umbanda Mirim

Outros nomes: É também conhecida como: Aumbandã; Escola da Vida; Umbanda Branca; Umbanda de Mesa Branca; e Umbanda de Cáritas.

Origem: É a vertente fundamentada pelo Caboclo Mirim através do seu médium Benjamin Gonçalves Figueiredo (26/12/1902 – 03/12/1986), surgida no Rio de Janeiro, RJ, em 13/03/1924, com a fundação da Tenda Espírita Mirim.

Foco de divulgação: Os principais focos de divulgação dessa vertente são: a Tenda Espírita Mirim (matriz e filiais); e o Primado de Umbanda, fundado em 1952.

Orixás: Nesta vertente não existe o culto aos santos católicos e os Orixás foram reinterpretados de maneira totalmente distinta das tradições africanas, não havendo nenhuma vinculação dos mesmos com elas. Considera a existência de nove Orixás: Oxalá, Ogum, Oxóssi, Xangô, Obaluaiê, Iemanjá, Oxum, Iansã e Nanã.

Linhas de trabalho: Considera a existência de sete linhas de trabalho: de Oxalá, de Iemanjá (onde inclui Iemanjá, Oxum, Iansã, Nanã), de Ogum, de Oxóssi, de Xangô, do Oriente (onde agrupa as entidades orientais) e de Yofá (onde agrupa os Pretos-Velhos e as Pretas-Velhas).

Entidades: Os trabalhos são realizados principalmente por Caboclos(as), Pretos(as)-Velhos(as) e Crianças e não há giras para Exus e Pombagiras, uma vez que estes últimos não são considerados trabalhadores da Umbanda e sim da Quimbanda.

Ritualística: A roupa branca com pontos riscados bordados é a única vestimenta usada pelos médiuns durante as giras e encontra-se o uso de fumo, defumadores e a imagem de Jesus Cristo nos trabalhos, porém as guias, velas, bebidas, atabaques e demais imagens não são usados nas cerimônias, havendo o uso de termos de origem tupi para designar o grau dos médiuns nelas.

Livros doutrinários: Esta vertente usa os seguintes livros como principais fontes doutrinárias: “Okê, Caboclo”; “O livro dos espíritos”; “O livro dos médiuns”; e “O evangelho segundo o Espiritismo”.

Umbanda Popular

Outros nomes: É também conhecida como: Umbanda Cruzada; e Umbanda Mística.

Origem: É uma das mais antigas vertentes, fruto da umbandização de antigas casas de Macumbas, porém não existe registro da data e do local inicial em que começou a ser praticada. É a vertente mais aberta a novidades, podendo ser comparada, guardada as devidas proporções, com o que alguns estudiosos da religião identificam como uma característica própria da religiosidade das grandes cidades do mundo ocidental na atualidade, onde os indivíduos escolhem, como se estivessem em um supermercado, e adotam as práticas místicas e religiosas que mais lhe convêm, podendo, inclusive, associar aquelas de duas ou mais religiões.

Foco de divulgação: Não existe um foco principal de divulgação dessa vertente na atualidade, uma vez que não existe uma doutrina comum em seu interior. Entretanto, é a vertente mais difundida em todo o país.

Orixás: Nesta vertente encontra-se um forte sincretismo dos santos católicos com os Orixás, associados a um conjunto de práticas místicas e religiosas de diversas origens adotadas pela população em geral, tais como: rezas, benzimentos, simpatias, uso de cristais, incensos, patuás e ervas para o preparo de banhos de purificação e chás medicinais. Considera a existência de dez Orixás: Oxalá, Ogum, Oxóssi, Xangô, Obaluaiê, Iemanjá, Oxum, Iansã, Nanã e Ibejis. Em alguns lugares também são cultuados mais dois Orixás: Ossaim e Oxumaré.

Linhas de trabalho: Existem três versões para as linhas de trabalho nesta vertente:

  • Na mais antiga, são consideradas a existência de sete linhas de trabalho: de Oxalá (onde inclui as Crianças), de Iemanjá (onde inclui Iemanjá, Oxum, Nanã), de Ogum, de Oxóssi, de Xangô (onde inclui Xangô e Iansã), do Oriente (onde agrupa as entidades orientais) e das Almas (onde agrupa os Pretos-Velhos e as Pretas-Velhas);
  • Na intermediária, também são consideradas a existência de sete linhas de trabalho: de Oxalá, de Iemanjá (onde inclui Iemanjá, Oxum, Nanã), de Ogum, de Oxóssi, de Xangô (onde inclui Xangô e Iansã), das Crianças e das Almas (onde agrupa os Pretos-Velhos e as Pretas-Velhas);
  • Na mais recente, são consideradas como linha de trabalho cada tipo de entidade: de Caboclos(as), de Pretos(as)-Velhos(as), de Crianças, de Baianos(as), etc.

Entidades: Os trabalhos são realizados por diversas entidades: Caboclos(as), Pretos(as)-Velhos(as), Crianças, Boiadeiros, Baianos(as), Marinheiros, Sereias, Ciganos(as), Exus, Pombagiras, Exus-Mirins e Malandros(as).

Ritualística: Embora a roupa branca seja a vestimenta principal dos médiuns, essa vertente aceita o uso de roupas de outras cores pelas entidades, bem como o uso de complementos (tais como capas e cocares) e de instrumentais próprios (espada, machado, arco, lança, etc.). Nela encontra-se o uso de guias, imagens, fumo, defumadores, velas, bebidas, cristais, incensos, pontos riscados e atabaques nos trabalhos.

Livros doutrinários: Esta vertente não possui um livro específico como fonte doutrinária.

Umbanda Omolocô

Outros nomes: É também conhecida como Umbanda Traçada.

Origem: É fruto da umbandização de antigas casas de Omolocô, porém não existe registro da data e do local inicial em que começou a ser praticada. Começou a ser fundamentada pelo médium Tancredo da Silva Pinto (10/08/1904 – 01/09/1979) em 1950, no Rio de Janeiro, RJ.

Foco de divulgação: Os principais focos de divulgação dessa vertente são: os noves livros escritos por Tancredo da Silva Pinto; as tendas criadas por seus iniciados; e o livro “Umbanda Omolocô”, escrito por Caio de Omulu.

Orixás: Nesta vertente encontra-se um forte sincretismo dos Orixás com os santos católicos, sendo que aqueles estão vinculados às tradições africanas, principalmente as do Omolocô. Considera a existência de nove Orixás: Oxalá, Ogum, Oxóssi, Xangô, Obaluaiê, Iemanjá, Oxum, Iansã e Nanã.

Linhas de trabalho: Considera como linha de trabalho cada tipo de entidade: de Caboclos(as), de Pretos(as)-Velhos(as), de Crianças, de Baianos, etc.

Entidades: Os trabalhos são realizados por diversas entidades: Falangeiros de Orixá, Caboclos(as), Pretos(as)-Velhos(as), Crianças, Boiadeiros, Baianos(as), Marinheiros, Sereias, Ciganos(as), Exus, Pombagiras e Malandros(as).

Ritualística: Embora a roupa branca seja a vestimenta principal dos médiuns, essa vertente aceita o uso de roupas de outras cores pelas entidades, bem como o uso de complementos (tais como capas e cocares) e de instrumentais próprios (espada, machado, arco, lança, etc.). Nela encontra-se o uso de guias, imagens, fumo, defumadores, velas, bebidas, cristais, incensos, pontos riscados e atabaques nos trabalhos. Nesta vertente também são utilizadas algumas cerimônias de iniciação e avanço de grau semelhantes à forma como são realizadas no Omolocô, incluindo o sacrifício de animais.

Livros doutrinários: Esta vertente usa os seguintes livros como principais fontes doutrinárias: “A origem de Umbanda”; “As mirongas da Umbanda”; “Cabala Umbandista”; “Camba de Umbanda”; “Doutrina e ritual de Umbanda”; “Fundamentos da Umbanda”; “Impressionantes cerimônias da Umbanda”; “Tecnologia ocultista de Umbanda no Brasil”; e “Umbanda: guia e ritual para organização de terreiros”.

Umbanda Almas e Angola

Outros nomes: É também conhecida como Umbanda Traçada.

Origem: É fruto da umbandização de antigas casas de Almas e Angola, porém não existe registro da data e do local inicial em que começou a ser praticada.

Foco de divulgação: Não existe um foco principal de divulgação dessa vertente na atualidade, uma vez que não existe uma doutrina comum em seu interior.

Orixás: Nesta vertente encontra-se um forte sincretismo dos Orixás com os santos católicos, sendo que aqueles estão vinculados às tradições africanas, principalmente as do Almas e Angola. Considera a existência de nove Orixás: Oxalá, Ogum, Oxóssi, Xangô, Obaluaiê, Iemanjá, Oxum, Iansã e Nanã.

Linhas de trabalho: Considera a existência de sete linhas de trabalho: de Oxalá, do Povo d’Água (onde inclui Iemanjá, Oxum, Nanã e Iansã), de Ogum, de Oxóssi, de Xangô, das Beijadas (onde agrupa as Crianças) e das Almas (onde inclui Obaluaiê e agrupa os Pretos-Velhos e as Pretas-Velhas).

Entidades: Os trabalhos são realizados por diversas entidades: Falangeiros de Orixá, Caboclos(as), Pretos(as)-Velhos(as), Crianças, Boiadeiros, Baianos(as), Marinheiros, Exus e Pombagiras.

Ritualística: Embora a roupa branca seja a vestimenta principal dos médiuns, essa vertente aceita o uso de roupas de outras cores pelas entidades, bem como o uso de complementos (tais como capas e cocares) e de instrumentais próprios (espada, machado, arco, lança, etc.). Nela encontra-se o uso de guias, imagens, fumo, defumadores, velas, bebidas, cristais, incensos, pontos riscados e atabaques nos trabalhos. Nesta vertente também são utilizadas algumas cerimônias de iniciação e avanço de grau semelhantes à forma como são realizadas no Almas e Angola, incluindo o sacrifício de animais.

Livros doutrinários: Esta vertente não possui um livro específico como fonte doutrinária.

Umbandomblé

Outros nomes: É também conhecida como Umbanda Traçada.

Origem: É fruto da umbandização de antigas casas de Candomblé, notadamente as de Candomblé de Caboclo, porém não existe registro da data e do local inicial em que começou a ser praticada. Em alguns casos, o mesmo pai-de-santo (ou mãe-de-santo) celebra tanto as giras de Umbanda quanto o culto do Candomblé, porém em sessões diferenciadas por dias e horários.

Foco de divulgação: Não existe um foco principal de divulgação dessa vertente na atualidade.

Orixás: Nesta vertente existe um culto mínimo aos santos católicos e os Orixás são fortemente vinculados às tradições africanas, principalmente as da nação Ketu, podendo inclusive ocorrer a presença de outras entidades no panteão que não são encontrados nas demais vertentes da Umbanda (Oxalufã, Oxaguiã, Ossain, Obá, Ewá, Logun-Edé, Oxumaré).

Linhas de trabalho: Considera como linha de trabalho cada tipo de entidade: de Caboclos(as), de Pretos(as)-Velhos(as), de Crianças, de Baianos, etc.

Entidades: Os trabalhos são realizados por diversas entidades: Falangeiros de Orixá, Caboclos(as), Pretos(as)-Velhos(as), Crianças, Boiadeiros, Baianos(as), Marinheiros, Sereias, Ciganos(as), Exus, Pombagiras e Malandros(as).

Ritualística: Embora a roupa branca seja a vestimenta principal dos médiuns, essa vertente aceita o uso de roupas de outras cores pelas entidades, bem como o uso de complementos (tais como capas e cocares) e de instrumentais próprios (espada, machado, arco, lança, etc.). Nela encontra-se o uso de guias, imagens dos Orixás na representação africana, fumo, defumadores, velas, bebidas e atabaques nos trabalhos. Nesta vertente também são utilizadas algumas cerimônias de iniciação e avanço de grau semelhantes à forma como são realizadas nos Candomblés, incluindo o sacrifício de animais, podendo ser encontrado, também, curimbas cantadas em línguas africanas (banto ou iorubá).

Livros doutrinários: Esta vertente não possui um livro específico como fonte doutrinária.

Umbanda Eclética Maior

Outros nomes: Não possui.

Origem: É a vertente fundamentada por Oceano de Sá (23/02/1911 – 21/04/1985), mais conhecido como mestre Yokaanam, surgida no Rio de Janeiro, RJ, em 27/03/1946, com a fundação da Fraternidade Eclética Espiritualista Universal.

Foco de divulgação: Os principais focos de divulgação dessa vertente são a sede da fraternidade e suas regionais.

Orixás: Nesta vertente existe uma forte vinculação dos Orixás aos santos católicos, sendo que aqueles foram reinterpretados de maneira totalmente distinta das tradições africanas, não havendo nenhuma vinculação dos mesmos com elas. Considera a existência de pelo menos nove Orixás: Oxalá, Ogum, Ogum de Lei, Oxóssi, Xangô, Xangô-Kaô, Yemanjá, Ibejês e Yanci, sendo que um deles não existe nas tradições africanas (Yanci) e alguns deles seriam considerados manifestações de um Orixá em outras vertentes (Ogum de Lei/Ogum e Xangô-Kaô/Xangô).

Linhas de trabalho: Considera a existência de sete linhas de trabalho, fortemente associadas a santos católicos: de São Jorge (Ogum), de São Sebastião (Oxóssi), de São jerônimo (Xangô), de São João Batista (Xangô-Kaô), de São Custódio (Ibejês), de Santa Catarina de Alexandria (Yanci) e São Lázaro (Ogum de Lei).

Entidades: Os trabalhos são realizados principalmente por Caboclos(as), Pretos(as)-Velhos(as), e Crianças.

Ritualística: A roupa branca é a vestimenta usada pelos médiuns durante as giras e encontra-se o uso de uma cruz, um quadro com o rosto de Jesus Cristo, velas, porém os atabaques, as guias, as bebidas e fumo não são utilizados nas cerimônias.

Livros doutrinários: Esta vertente usa os seguintes livros como principais fontes doutrinárias: “Evangelho de Umbanda”; “Manual do instrutor eclético universal”; “Yokaanam fala à posteridade”; e “Princípios fundamentais da doutrina eclética”.

Aumbhandã

Outros nomes: É também conhecida como: Umbanda Esotérica; Aumbhandan; Conjunto de Leis Divinas; Senhora da Luz Velada; e Umbanda de Pai Guiné.

Origem: É a vertente fundamentada por Pai Guiné de Angola através do seu médium Woodrow Wilson da Matta e Silva, também conhecido com mestre Yapacani (28/06/1917 – 17/04/1988), surgida no Rio de Janeiro, RJ, em 1956, com a publicação do livro “Umbanda de todos nós”. Sua doutrina é fortemente influenciada pela Teosofia, pela Astrologia, pela Cabala e por outras escolas ocultistas mundiais e baseada no instrumento esotérico conhecido como Arqueômetro, criado por Saint Yves D’Alveydre e com o qual se acredita ser possível conhecer uma linguagem oculta universal que relaciona os símbolos astrológicos, as combinações numerológicas, as relações da cabala e o uso das cores.

Foco de divulgação: Os principais focos de divulgação dessa vertente são: os noves livros escritos por Matta e Silva; e as tendas e ordens criadas por seus discípulos.

Orixás: Nesta vertente não existe o culto aos santos católicos e os Orixás foram reinterpretados de maneira totalmente distinta das tradições africanas, não havendo nenhuma vinculação dos mesmos com elas. Considera a existência de sete Orixás: Orixalá, Ogum, Oxóssi, Xangô, Yemanjá, Yori, Yorimá, sendo que dois deles não existem nas tradições africanas (Yori e Yorimá).

Linhas de trabalho: Considera a existência de sete linhas de trabalho, que recebem o nome dos Orixás: de Oxalá, de Yemanjá, de Ogum, de Oxóssi, de Xangô, de Yori (onde agrupa as Crianças) e de Yorimá (onde agrupa os Pretos-Velhos e as Pretas-Velhas).

Entidades: Os trabalhos são realizados somente por Caboclos(as), Pretos(as)-Velhos(as), Crianças e Exus, sendo que estes últimos não são considerados trabalhadores da Umbanda e sim da Quimbanda.

Ritualística: A roupa branca é a vestimenta usada pelos médiuns durante as giras e encontra-se o uso de guias feitas de elementos naturais, um quadro com o rosto de Jesus Cristo, fumo, defumadores, velas, bebidas, cristais e tábuas com ponto riscado nos trabalhos, porém os atabaques não são utilizados nas cerimônias.

Livros doutrinários: Esta vertente usa os seguintes livros como principais fontes doutrinárias: “Doutrina secreta da Umbanda”; “Lições de Umbanda e Quimbanda na palavra de um Preto-Velho”; “Mistérios e práticas da lei de Umbanda”; “Segredos da magia de Umbanda e Quimbanda”; “Umbanda de todos nós”; “Umbanda do Brasil”; “Umbanda: sua eterna doutrina”; “Umbanda e o poder da mediunidade”; e “Macumbas e Candomblés na Umbanda”.

Umbanda Guaracyana

Outros nomes: Não possui.

Origem: É a vertente fundamentada pelo Caboclo Guaracy através do seu médium Sebastião Gomes de Souza (1950 – ), mais conhecido como Carlos Buby, surgida em São Paulo, SP, em 02/08/1973, com a fundação da Templo Guaracy do Brasil.

Foco de divulgação: Os principais focos de divulgação dessa vertente são os Templos Guaracys do Brasil e do Exterior.

Orixás: Nesta vertente não existe o culto aos santos católicos e os Orixás foram reinterpretados em relação às tradições africanas, havendo, entretanto, uma ligação dos mesmos com elas. Considera a existência de dezesseis Orixás, divididos em quatro grupos, relacionados aos quatro elementos e aos quatro pontos cardeais: Fogo/Sul (Elegbara, Ogum, Oxumarê, Xangô), Terra/Oeste (Obaluaiê, Oxóssi, Ossãe, Obá), Norte/Água (Nanã, Oxum, Iemanjá, Ewá) e Leste/Ar (Iansã, Tempo, Ifá e Oxalá).

Linhas de trabalho: Considera como linha de trabalho cada tipo de entidade: de Caboclos(as), de Pretos(as)-Velhos(as), de Crianças, de Baianos, etc.

Entidades: Os trabalhos são realizados por diversas entidades: Caboclos(as), Pretos(as)-Velhos(as), Crianças, Boiadeiros, Baianos(as), Marinheiros, Ciganos(as), Exus e Pombagiras.

Ritualística: Roupas coloridas (na cor do Orixá) são a vestimenta usada pelos médiuns durante as giras e encontra-se o uso de guias, fumo, defumadores, velas e atabaques nos trabalhos, porém não são utilizadas imagens e bebidas nas cerimônias.

Livros doutrinários: Esta vertente não possui um livro específico como fonte doutrinária.

Umbanda dos Sete Raios

Outros nomes: Não possui.

Origem: É a vertente fundamentada por Ney Nery do Reis (Itabuna, (26/09/1929 – ), mais conhecido como Omolubá, e por Israel Cysneiros, surgida no Rio de Janeiro, RJ, em novembro de 1978, com a publicação do livro “Fundamentos de Umbanda – Revelação Religiosa”

Foco de divulgação: Os principais focos de divulgação dessa vertente são as obras escritas por Omolubá e as tendas criadas por seus discípulos.

Orixás: Nesta vertente não existe o culto aos santos católicos e os Orixás foram reinterpretados em relação às tradições africanas. Considera a existência de doze Orixás, divididos em sete raios: 1º raio, Iemanjá e Nanã; 2º raio, Oxalá; 3º raio, Omulu; 4º raio, Oxóssi e Ossãe; 5º raio, Xangô e Iansã; 6º raio, Oxum e Oxumaré; e 7º raio, Ogum e Ibejs.

Linhas de trabalho: Considera como linha de trabalho cada tipo de entidade: de Caboclos(as), de Pretos(as)-Velhos(as), de Crianças, de Baianos, etc.

Entidades: Os trabalhos são realizados por diversas entidades: Caboclos(as), Pretos(as)-Velhos(as), Crianças, Orientais, Boiadeiros, Baianos(as), Marinheiros, Ciganos(as), Pilintras, Exus e Pombagiras.

Ritualística: Embora a roupa branca seja a vestimenta principal dos médiuns, essa vertente aceita o uso de roupas de outras cores pelas entidades, bem como o uso de complementos (tais como capas e cocares) e de instrumentais próprios (espada, machado, arco, lança, etc.). Nela encontra-se o uso de guias, imagens de entidades, fumo, defumadores, velas, bebidas, pontos riscados e atabaques nos trabalhos.

Livros doutrinários: Esta vertente possui os seguintes livros e periódicos como fonte doutrinária: “ABC da Umbanda: única religião nascida no Brasil”; “Almas e Orixás na Umbanda”; “Cadernos de Umbanda”; “Fundamentos de Umbanda: revelação religiosa”; “Magia de Umbanda: instruções religiosas”; “Manual prático de jogos de búzios”; “Maria Molambo: na sombra e na luz”; “Orixás, mitos e a religião na vida contemporânea”; “Pérolas espirituais”; “Revista Seleções de Umbanda”; “Tranca Ruas das Almas: do real ao sobrenatural”; “Umbanda, poder e magia: chave da doutrina”; e “Yemanjá, a rainha do mar”.

Aumpram

Outros nomes: É também conhecida como: Aumbandhã; e Umbanda Esotérica.

Origem: É a vertente fundamentada por Pai Tomé (também chamado Babajiananda) através do seu médium, Roger Feraudy (1923 – 22/03/2006), surgida no Rio de Janeiro, RJ, em 1986, com a publicação do livro “Umbanda, essa desconhecida”. Esta vertente é uma derivação da Aumbhandã, das quais foi se distanciando ao adotar os trabalhos de apometria e ao desenvolver a sua doutrina da origem da Umbanda: considera que esta religião surgiu a 700.000 anos em dois continentes míticos perdidos, Lemúria e Atlântida, que teriam afundado no oceano em um cataclismo planetário. Nestes continentes, os terráqueos teriam vivido junto com seres extraterrestres, os quais teriam ensinado aqueles sobre o Aumpram, a verdadeira lei divina.

Foco de divulgação: Os principais focos de divulgação dessa vertente são: os livros escritos por Roger Feraudy; e as tendas e fraternidades criadas por seus discípulos.

Orixás: Nesta vertente não existe o culto aos santos católicos e os Orixás foram reinterpretados de maneira totalmente distinta das tradições africanas, não havendo nenhuma vinculação dos mesmos com elas. Considera a existência dos 7 Orixás da Umbanda Esotérica (Oxalá, Yemanjá, Ogum, Oxóssi, Xangô, Yori e Yorimá) e mais Obaluaiê, o qual consideram o Orixá oculto da Umbanda.

Linhas de trabalho: Considera a existência de sete linhas de trabalho, que recebem o nome dos 7 Orixás: de Oxalá, de Yemanjá, de Ogum, de Oxóssi, de Xangô, de Yori (onde agrupa as Crianças) e de Yorimá (onde agrupa os Pretos-Velhos e as Pretas-Velhas).

Entidades: Os trabalhos são realizados somente por Caboclos(as), Pretos(as)-Velhos(as), Crianças e Exus, sendo que estes últimos não são considerados trabalhadores da Umbanda e sim da Quimbanda.

Ritualística: A roupa branca é a vestimenta usada pelos médiuns durante as giras e encontra-se o uso da imagem de Jesus Cristo, fumo, defumadores, velas, cristais e incensos nos trabalhos, porém as guias e os atabaques não são utilizados nas cerimônias.

Livros doutrinários: Esta vertente usa os seguintes livros como principais fontes doutrinárias: “Umbanda, essa desconhecida”; “Erg, o décimo planeta”; “Baratzil: a terra das estrelas”; e “A terra das araras vermelhas: uma história na Atlântida”.

Ombhandhum

Outros nomes: É também conhecida como: Umbanda Iniciática; Umbanda de Síntese; e Proto-Síntese Cósmica.

Origem: É a vertente fundamentada pelo médium Francisco Rivas Neto (1950 – ), mais conhecido como Arhapiagha, surgida em São Paulo, SP, em 1989, com a publicação do livro “Umbanda: a proto-síntese cósmica”. Esta vertente começou como uma derivação da Umbanda Esotérica, porém aos poucos foi se distanciando cada vez mais dela, conforme ia desenvolvendo sua doutrina conhecida como movimento de convergência, que busca um ponto de convergência entre as várias vertentes umbandistas. Nela existe uma grande influência oriental, principalmente em termos de mantras indianos e utilização do sânscrito, e há a crença de que a Umbanda é originária de dois continentes míticos perdidos, Lemúria e Atlântida, que teriam afundado no oceano em um cataclismo planetário.

Foco de divulgação: Os principais focos de divulgação dessa vertente são: o livro “Umbanda: a proto-síntese cósmica”; a Faculdade de Teologia Umbandista, fundada em 2003; o Conselho Nacional da Umbanda do Brasil, fundado em 2005; e as tendas e ordens criadas pelos discípulos de Rivas Neto.

Orixás: Nesta vertente não existe o culto aos santos católicos e os Orixás foram reinterpretados de maneira totalmente distinta das tradições africanas, não havendo nenhuma vinculação dos mesmos com elas. Considera a existência dos 7 Orixás da Umbanda Esotérica, associados, cada um deles, a mais um Orixá, de sexo oposto, formando um casal: Orixalá-Odudua, Ogum-Obá, Oxóssi-Ossaim, Xangô-Oyá, Yemanjá-Oxumaré, Yori-Oxum, Yorimá-Nanã. Por esta associação nota-se que alguns Orixás tiveram seu sexo modificado em relação a tradição africana (Odudua e Ossaim).

Linhas de trabalho: Considera a existência de sete linhas de trabalho, que recebem o nome dos Orixás principais do par: de Oxalá, de Yemanjá, de Ogum, de Oxóssi, de Xangô, de Yori (onde agrupa as Crianças) e de Yorimá (onde agrupa os Pretos-Velhos e as Pretas-Velhas).

Entidades: Os trabalhos são realizados somente por Caboclos(as), Pretos(as)-Velhos(as), Crianças e Exus, sendo que estes últimos não são considerados trabalhadores da Umbanda e sim da Quimbanda.

Ritualística: A roupa branca é a vestimenta usada pelos médiuns durante as giras de Umbanda e a roupa preta, associada ao vermelho e branco, nas de Exu, sendo admitidos o uso de complementos por sobre a roupa dos médiuns, tais como cocares de caboclos. Nela encontra-se o uso de guias, fumo, defumadores, velas, bebidas, cristais, atabaques  e tábuas com ponto riscado nos trabalhos.

Livros doutrinários: Esta vertente usa o seguinte livro como principal fonte doutrinária: “Umbanda: a proto-síntese cósmica”.

Umbanda Sagrada

Outros nomes: Não possui.

Origem: É a vertente fundamentada por Pai Benedito de Aruanda e pelo Ogum Sete Espadas da Lei e da Vida, através do seu médium Rubens Saraceni (1951 – ), surgida em São Paulo, SP, em 1996, com a criação do Curso de Teologia de Umbanda. Sua doutrina procura ser totalmente independente das doutrinas africanistas, espíritas, católicas e esotéricas, pois considera que a Umbanda possui fundamentos próprios e independentes dessas tradições, embora reconheça a influências das mesmas na religião.

Foco de divulgação: Os principais focos de divulgação dessa vertente são: o Colégio de Umbanda Sagrada Pai Benedito de Aruanda, fundado em 1999; o Instituto Cultural Colégio Tradição de Magia Divina, fundado em 2001; a Associação Umbandista e Espiritualista do Estado de São Paulo, fundada em 2004; os livros escritos por Rubens Saraceni; o Jornal de Umbanda Sagrada editado por Alexandre Cumino; o programa radiofônico Magia da Vida; e os colégios e tendas criadas por seus discípulos.

Orixás: Nesta vertente os adeptos podem realizar o culto aos santos católicos da maneira que melhor lhes convier e os Orixás são entendidos como manifestações de Deus que ocorreram sobre diferentes nomes em diferentes épocas, sendo reinterpretados de maneira totalmente distinta das tradições africanas, não havendo nenhuma vinculação dos mesmos com elas. Considera a existência de catorze Orixás agrupados como casais em sete tronos divinos: Oxalá e Logunan (Trono da Fé); Oxum e Oxumaré (Trono do Amor); Oxóssi e Obá (Trono do Conhecimento); Xangô e Iansã (Trono da Justiça); Ogum e Egunitá (Trono da Lei); Obaluaiê e Nanã (Trono da Evolução); e Iemanjá e Omulu (Trono da Geração). Os sete primeiros de cada par são chamados Orixás Universais, responsáveis pela sustentação das ações retas e harmônicas, e os outros sete, Orixás Cósmicos, responsáveis pela atuação corretiva sobre as ações desarmônicas e invertidas, sendo que alguns deles seriam considerados manifestações do mesmo Orixá nas tradições africanas (Obaluaiê/Omulu e Iansã/Egunitá).

Linhas de trabalho: Considera como linha de trabalho cada tipo de entidade: de Caboclos(as), de Pretos(as)-Velhos(as), de Crianças, de Baianos, etc.

Entidades: Os trabalhos são realizados por diversas entidades: Caboclos(as), Pretos(as)-Velhos(as), Crianças, Boiadeiros, Baianos(as), Marinheiros, Sereias, Povo(s) do Oriente, Ciganos(as), Exus, Pombagiras, Exus-Mirins e Malandros(as).

Ritualística: A roupa branca é a vestimenta usada pelos médiuns durante as giras e encontra-se o uso de guias, fumo, defumadores, velas, bebidas, atabaques, imagens e pontos riscados nos trabalhos.

Livros doutrinários: Esta vertente usa toda a bibliografia publicada por Rubens Saracen, tendo os seguintes livros como principais fontes doutrinárias: “A evolução dos espíritos”; “A tradição comenta a evolução”; “As sete linhas de evolução”; “As sete linhas de Umbanda: a religião dos mistérios”; “Código de Umbanda”; “Doutrina e Teologia de Umbanda Sagrada”; “Formulário de consagrações umbandistas: livro de fundamentos”; “Hash-Meir: o guardião dos sete portais de luz”; “Lendas da criação: a saga dos Orixás”; “O ancestral místico”; “O código da escrita mágica simbólica”; “O guardião da pedra de fogo: as esferas positivas e negativas”; “O guardião das sete portas”; “O guardião dos caminhos: a história do senhor Guardião Tranca-Ruas”; “Orixá Exu-Mirim”; “Orixá Exu: fundamentação do mistério Exu na Umbanda”; “Orixá Pombagira”; “Orixás: teogonia de Umbanda”; “Os arquétipos da Umbanda: as hierarquias espirituais dos Orixás”; “Os guardiões dos sete portais: Hash-Meir e o Guardião das Sete Portas”; “Rituais umbandistas: oferendas, firmezas e assentamentos”; e “Umbanda Sagrada: religião, ciência, magia e mistérios”.

 


Abaixo segue a versão gráfica, simplificada, das vertentes acima descritas, de acordo com seu surgimento, bem como uma possível fonte de interrelacionamento entre elas. As vertentes foram, ainda, relacionadas à antiga nomenclatura usada para diferenciar os tipos de Umbanda, que são:

  • Umbanda Branca – agrupa as Umbandas que seguem uma doutrina mais próxima do espiritismo-catolicismo, utilizando inclusive os livros da doutrina espírita como fonte doutrinária, onde os médiuns se vestem apenas de branco e onde não há uso de atabaque, não há gira para Exus, Pombagiras, Malandros e quaisquer entidades quimbandeiras e não há uso de sacrifícios de animais;
  • Umbanda Branca Esotérica – caso particular das Umbandas Brancas, pois além de possuírem as características acima, também fazem uso de práticas consideradas de cunho esotérico-ocultista (cristais, numerologia, mantras, meditação, etc);
  • Umbanda Cruzada – contração da antiga expressão Umbanda cruzada com Quimbanda, agrupa as Umbandas onde, além das giras para as entidades da Umbanda, também ocorre gira para as entidades que originalmente faziam parte apenas da Quimbanda (Exus, Pombagiras, Malandros e outras entidades quimbandeiras), caso nos quais os médiuns eram autorizados a usar roupas escuras (especialmente a preta) para incorporar essas entidades e era normal fecharem o Gongá com uma cortina durante o trabalho deles, sendo possível encontrar nessas Umbandas a prática do sacrifício de animais para oferendar as entidades quimbandeiras;
  • Umbanda Traçada – um caso particular da Umbanda Cruzada, seu nome é uma contração da antiga expressão Umbanda Cruzada Traçada com Candomblé, pois agrupa as Umbandas Cruzadas que possuem doutrinas, ritos e práticas originários das tradições africanas, principalmente aquelas oriundas dos diversos Candomblés, sendo possível encontrar, dentro delas, a prática do sacrifício de animais para os Orixás;
  • Umbanda Esotérica – um caso particular da Umbanda Cruzada, seu nome é uma contração da antiga expressão Umbanda Cruzada Esotérica, pois agrupa as Umbandas Cruzadas que também fazem uso de práticas consideradas de cunho esotérico-ocultista (cristais, numerologia, mantras, meditação, etc).

Importante ressaltar que a posição das vertentes no gráfico não possui nenhuma relação com questões de hierarquia superior ou inferior entre elas: foi apenas para facilitar a visualização das informações ali contidas.

"Esta imagem pertence ao Blog Registros de Umbanda"

Os dezesseis mandamentos de Ifá

19/05/2015

Os 16 Mandamentos de Ifá

Atenção: Desconhece-se a fonte deste trabalho. Se alguém a souber queira, por favor, informar-nos.

Adaptado por Mário Filho

 

Este texto é um guia comportamental a todos os Sacerdotes e Sacerdotisas de Tradição Afro-religiosa, retirado do Odù Ìká-Òfún:

Texto em Yorùbá:

Ení da ilè á bá ilè lo

A d’ífá fún àgbààgbà mérìndínlógún

Wón nrelé Ifè wón nlo rèé toró ógbó

Àwon lè gbó àwon lè to bi Olódùmarè tí rán won ni wón dá Ifá si

Wón ní wón a gbó, won a tó sùgbón kí wón pa ìkìlò mó

Ifá ní:
1) wón ní kí wón ma fi èsúrú pe èsúrú

2) wón ní kí wón ma fi èsúrú pe èsúrú

3) wón ní kí wón ma fi odíde pe òòdè

4) wón ní kí wón ma fi ewé Ìrókò pe ewé Oriro

5) wón ní kí wón ma fi àimòwè bá won dé odò

6) wón ní kí wón ma fi àìlókó bá won ké háin-háin

7) wón ní kí wón ma gba onà èbùrú wo‘lé Àkàlà

8) wón ní kí wón ma fi ìkóóde nu ìdí

9) wón ní kí wón ma su sí epo

10) wón ní kí wón ma tò sí àfò

11) wón ní kí wón ma gba òpá l’ówó afó

12) wón ní kí wón ma gba òpá l’ówó ògbó

13) wón ní kí wón ma gba obìnrin ògbóni

14) wón ní kí wón ma gba obìnrin òré

15) wón ní kí wón ma s’òrò ìmùlè l’éhìn

16) wón ní kí wón ma sàn-án ìbàntè awo

Wón dé’lé ayé tán ohun tí wón ní kí wón má se wón nse

Wón wá bèrè síí kú

Wón fí igbe ta, wón ní Òrúnmìlà npa wón

Òrúnmìlà ní òun kó l’óún npa wón

Òrúnmìlà ní àìpa ìkìlò mó o won ló npa wón

Àgbà re d’owó re.

Tradução para o português, com sua interpretação:

Muitos andam pela vida sem rumo e acabam indo buscar os conselhos de Ifá. Este era o caso dos ancestrais que buscaram cobrar de Ifá a promessa feita por Olódùmarè (Deus), que dava a eles uma vida longa.
Diz Ifá:

1º. Não digam o que não sabem (èsúrú pode ser tanto uma conta sagrada como um nome de uma pessoa).

Um sacerdote não deve enganar ao seu semelhante acenando com conhecimentos que não possui. E jamais dizer o que não sabe, ou seja, passar ensinamentos incorretos ou que não tenham sido transmitidos pelos seus mestres e mais velhos ou adquiridos de formas legítimas. É necessário o conhecimento verdadeiro para a prática da verdadeira religião.

Quem abusa da confiança do próximo, enganando-o e manipulando-o através da ignorância religiosa, sofrerá graves conseqüências pelos seus atos. A natureza se incumbirá de cobrar os erros cometidos e isto se refletirá em sua descendência consangüínea e espiritual.

2º. Não façam ritos que não saibam fazer (novamente avisa: não troquem a conta sagrada pelo nome).

O sacerdote deve saber distinguir entre o ser profano e o ser sagrado, o ato profano e o ato sagrado, o objeto profano e o objeto sagrado.

Não se podem realizar rituais sem que se tenha investidura e conhecimento básico para realizá-los. Chamar a todos, é considerar a todos, indiscriminadamente, como seres talhados para a missão sacerdotal, o que é uma inverdade ou, o que é pior, uma manipulação de interesses. Da mesma forma que nem todas as contas servem para formar-se o colar de uma divindade (como as contas sagradas), nem todos os seres humanos nasceram fadados para a prática sacerdotal.

Para ser um sacerdote são necessários inúmeros atributos morais, intelectuais, procedimentais e vocacionais. A simples iniciação de um ser profano, desprovido destes atributos básicos e essenciais, não o habilita como um sacerdote legítimo e legitimado. Da má interpretação e inobservância deste mandamento resulta a grande quantidade de maus sacerdotes que proliferam hoje em dia dentro do Culto. Observa-se a diferença entre “ser sacerdote” e “estar sacerdote”. Aquele que se submete à iniciação visando tão somente o status de sacerdote, jamais será um verdadeiro sacerdote. Estará sacerdote, cargo adquirido pela iniciação, mas jamais será sacerdote, condição imposta por sua vocação, dedicação, espiritualidade e desprendimento. Caberá ao sacerdote iniciador do neófito consultar Ifá, com muito critério, para apurar se aquele noviço será realmente digno do sacerdócio.

3º. Não enganem as pessoas (trocando a pena de papagaio por morcego).

O sacerdote nunca deve desencaminhar as pessoas dando-lhes maus conselhos e orientações erradas.

É inadmissível que um sacerdote se utilize do seu poder e do seu conhecimento religioso para, em proveito próprio, induzir ao erro aqueles que o cercam. Ao agirem desta forma, assumem a postura das aves noturnas que, nas trevas, saciam suas necessidades com o sacrifício e o suor alheio. Dar maus conselhos e orientações erradas é expor as pessoas aos perigos de energias maléficas e sem controle.

Uma das mais importantes funções do sacerdote é orientar seu discípulo, conduzindo-o ao caminho correto, ao encontro da felicidade, de acordo com os ditames estabelecidos por seu destino pessoal e de seus ancestrais protetores.

Quem chega aos pés de Òrúnmìlá para consultar seu oráculo em busca de soluções, deve ser orientado pelo sacerdote corretamente, independente do interesse deste como olhador. A pessoa que chega com um problema deve ter seu problema solucionado e não vê-lo acrescentado de outros criados artificialmente com o fito de proporcionar a quem a consulta, vantagens financeiras ou possibilidade de conquistas e abusos sexuais.

4º. Não conduzam as pessoas a uma vida falsa (mostrando a folha de ìrókò e dizendo que é folha de oriro).

Tudo deve ser feito de acordo com os ditames e os preceitos religiosos. A simples troca de uma simples folha pode ocasionar conseqüências maléficas ou tornar sem efeito um grande ritual da mesma forma que as folhas do Arágbà não são iguais às folhas de Akókò.

O sacerdote não pode, em nenhuma condição, utilizar-se de falsos recursos, fornecendo coisas sem validade religiosa como elementos de segurança ou de culto. Os procedimentos litúrgicos devem ser observados integralmente e a ninguém cabe o direito de fazer “isto” por “aquilo” quando em “aquilo” é que está a solução.

Aquele que utiliza de meios escusos e enganosos contra seus semelhantes, será culpado do crime de abuso de confiança. Aquele que usa de artifícios e mentiras contra as pessoas inocentes e de bom coração provoca o descontentamento de Òrúnmìlá e a conseqüente ira de Esù..

“Òrúnmìlá é aquele que nos olha com amor, não façamos por onde o mesmo possa nos olhar com desprezo”.

5º. Não queiram ser uma coisa que vocês não são (não queiram nadar se vocês não conhecem o rio).

O saber é fundamental para quem quer fazer. Para tanto, é necessário o poder, que só o conhecimento pode outorgar.

Um sacerdote não pode proceder a liturgias para as quais não seja habilitado através do processo iniciático ou cuja prática desconheça ou domine apenas parcialmente. Um sacerdote não deve ostentar uma sabedoria que na verdade não possua. Procurar saber não avilta, mas, pelo contrário, exalta o ser humano. O saber é condição básica para que se possa fazer. E todo ritual deve ser feito integralmente e com legitimidade total. Se houver dúvidas sobre algum procedimento, deve-se pesquisar profundamente sobre ele.

Cabe ao sacerdote ensinar tudo o que sabe àqueles que o cercam e que nele confiam. A sonegação de ensinamentos corretos e completos implica na responsabilidade da prática de suicídio cultural. Da mesma forma, buscar orientação em quem sabe nada tem de humilhante e enaltece tanto àquele que busca como ao que fornece a orientação. A verdadeira sabedoria consiste na consciência da própria ignorância. Não existe ser neste mundo que saiba tudo!

“Deus não deu ao ignorante o direito de aprender sem antes tomar de quem sabe a obrigação de ensinar”.

6º. Não sejam orgulhosos e egocêntricos.

Humildade e desprendimento são atributos indispensáveis de um verdadeiro sacerdote.

Um sacerdote não deve ser vaidoso de seus poderes, mas consciente deles e não deve agir somente visando o próprio benefício, existe para servir e não para ser servido. A vaidade transforma o homem fraco de espírito num pavão que faz questão de exibir sua bela plumagem sem a consciência de que é a sua beleza que, despertando a atenção de terceiros, irá provocar a sua morte. Num Ifádù (caminho de Ifá) encontramos narrativas que falam do exibicionismo do pavão que, ostentando a beleza de sua plumagem, atrai para si a atenção de todos que, depois de sacrificá-lo, transformam suas penas em belos leques e adornos.

O verdadeiro sacerdote, o eleito pela divindade, não se preocupa em exibir seu poder nem o seu saber em disputas vãs e inconseqüentes. Acumula em si uma grande carga de sabedoria que transmite com dedicação a quem merece saber. O exibicionismo é um dos maiores defeitos num ser humano e inadmissível a um sacerdote. Já dizia o velho jargão: “Num burro carregado de açúcar, até o suor é doce”. É assim que, aos olhos do sábio, parecem os exibicionistas: “burros carregando açúcar”.

7º. Não busquem o conselho de Ifá com más intenções ou falsidade (Àkàlà é um título usado para Òrúnmìlà).

As boas intenções devem prevalecer acima de tudo. A casa das divindades é o templo onde a iniciação é obtida.

A iniciação não pode ser motivada por interesses que não sejam puramente religiosos. As verdadeiras intenções do iniciando devem ser cristalinas como a água pura e desprovidas de qualquer outro objetivo que não seja servir à humanidade. Querer iniciar-se no culto por simples vaidade, para obter status social ou ostentar títulos sacerdotais é profanar o sagrado. Aquele que profana o sagrado tabernáculo das divindades, movido por qual for o motivo, pagará com duras penas o sacrilégio praticado.

O conhecimento corresponde às responsabilidades que nem todos estão preparados para assumir. O conceito mais amplo simboliza a atitude de um predador que esconde suas garras procurando adquirir a confiança de sua vítima para ter base de agir no momento mais propício aos seus objetivos. A mesma responsabilidade assume aquele que inicia pessoas que não possuam os requisitos básicos exigidos para tal, visando aí, a simples vantagem financeira. É muito melhor errar por não saber do que saber e persistir no erro.

8º. Não rompam (não mudem) ou revelem os ritos sagrados, fazendo mal uso deles.

A pena chamada Eekodidé é um dos símbolos mais sagrados dentro do culto e, por este motivo, jamais deverá ser aviltada.

Os sagrados fundamentos não podem ser usados com objetivos vãos. Os tabus devem ser integralmente observados sob pena de severas conseqüências. O sacerdote deve submeter-se de bom grado às interdições impostas por seu Fádù ou Odù pessoal, assim como aos tabus de sua divindade protetora. A observância destes ditames está diretamente ligada ao estado de submissão às divindades cultuadas. A obediência total às orientações de Ifá conduz o homem à plenitude das bênçãos. Utilizar-se dos sagrados conhecimentos de forma leviana corresponde a profanar o sagrado.

Não se deve utilizar o conhecimento para prejudicar a quem quer que seja. A prática do mal, invariavelmente, apresenta resultados mais rápidos, mas conduz a caminhos tortuosos que não têm volta. Da mesma forma, aquele que se utiliza deste conhecimento visando unicamente auferir vantagens econômicas, está em desacordo com os sagrados ditames e será responsabilizado por isto.

“Tornar vil um símbolo de iniciação como o Akpenin” é o mesmo que usar coisas sagradas com objetivos condenáveis e fúteis.

9º. Não sujem os objetos sagrados com as impurezas dos Homens, busquem nos ritos sagrados somente coisas boas.

A sujeira e a falta de higiene são incompatíveis com o rito.

Os Elementos sagrados, indispensáveis ao ritual, hão de ser sempre muito puros e limpos. Da mesma forma, tudo deve ser limpo, os instrumentos, os ambientes, os assentamentos e principalmente, as atitudes. É inaceitável a falta de limpeza e de higiene em qualquer aspecto, quer seja físico, ambiental ou moral. O sacerdote deve ser escrupuloso com tudo. Seus instrumentos litúrgicos, os altares das divindades cultuadas, seus trajes, seu corpo, suas atitudes e seu caráter hão de permanecer, sempre, impecavelmente limpos. Nenhum Òrìsà, Vòdún ou Mkisi admite a sujeira, seja ela física ou moral.

10º. Os templos devem ser lugares puros, de onde a sujeira do caráter humano deve ser lavada.

Tudo aquilo que antecede a um rito e que a ele faça referência, deve ser realizado com limpeza e religiosidade.

Da mesma forma que o ritual deve ser cercado de cuidados de limpeza, a confecção das comidas e oferendas deve seguir os mesmos princípios. Preparar as comidas ritualísticas é também um rito e deve ser realizado em total circunspeção e concentração religiosa. Durante a preparação das ofertas e comidas ritualísticas a atitude de quem dela participa deve ser a mesma de quem participa do ritual em si. É inadmissível que, neste momento sagrado, as pessoas estejam consumindo bebidas alcoólicas, falando coisas vulgares, discutindo, brigando ou tentando exibir seus conhecimentos, humilhando a quem sabe menos. A postura será sempre sacerdotal, o silêncio e a concentração devem ser mantidos e, ensinar a quem não sabe ou a quem sabe menos, é uma obrigação sagrada.

11º. Não desrespeitem ou inferiorizem os que têm maior dificuldade de assimilar conhecimentos ou deficiências no caráter, ajude-os a mudar.

Não se deve retirar a bengala de um cego. (A bengala de um cego substitui seus olhos e indica os obstáculos que se interpõem em seu caminho).

O sacerdote não pode prevalecer-se de sua carga de conhecimento para humilhar ou confundir a ninguém. O sacerdote há de ter o mais profundo respeito pelos que sabem menos. Ninguém tem o direito de descaracterizar o que os outros sabem e acreditam. Abalar a fé de quem sabe pouco ou nada sabe, é retirar a bengala de um cego, deixando-o sem qualquer orientação nas trevas em que caminha. Uma das mais importantes missões do sacerdote é ensinar e orientar.

Muitas vezes surgem pessoas que nada sabem e julgam saber. É neste momento que o sábio aflora no sacerdote e a orientação correta e o ensinamento certo são passados, com doçura, sutileza e humildade, sem melindrar a quem os recebe e sem provocar confusões em sua cabeça. Tudo deve ser ensinado com clareza e lógica. O Sacerdote, no exercício de seu sacerdócio, assume também a missão de mestre.

12º. Não desrespeitem os mais velhos, a sabedoria está com eles, a vida os fez aprender.

Não se retira o bastão de um ancião. (O bastão do ancião representa o acúmulo de experiências adquiridas nos longos anos em que viveu).

Deve-se respeitar e tratar muito bem aos mais velhos, principalmente os mais antigos na religião. O respeito aos mais velhos é um dos principais fundamentos de uma religião onde, reconhecidamente, antigüidade é posto. Faltar-lhes com o devido respeito e atenção é como lhes retirar o bastão em que se apóiam. Aquele que sabe respeitar, acatar e amar aos seus mais velhos, sem dúvida receberá o mesmo tratamento quando também caminhar apoiado no seu próprio bastão.

Os velhos, pelas experiências vividas, representam verdadeiros mananciais de sabedoria onde cada um deve procurar beber um pouco, saciando a sede de saber. São livros sagrados, cujas páginas devem ser lidas com paciência e carinho. Uma religião que, durante séculos incontáveis, teve seus fundamentos transmitidos oralmente, deve valorizar sobremaneira, aqueles que são depositários destes conhecimentos. Um velho, por mais obtuso que possa parecer à primeira vista, sempre terá algo, obtido nos longos anos vividos, a ensinar. Devemos lembrar sempre que, se antigüidade é posto, saber é poder!

13º. Não desrespeitem as linhas de condutas morais.

O Sacerdote, como homem de bem, deverá pautar sua vida de acordo com os ditames das leis dos homens e das sagradas leis de Ifá.

Pugnar pela obediência às leis é uma das obrigações de um sacerdote que, neste sentido, deve também orientar os seus seguidores. Da mesma forma, as leis de Fá, devem ser observadas integralmente e a ninguém cabe o direito de manipulá-las em benefício próprio ou de outrem. O homem religioso não pode viver à margem da lei e da sociedade da qual deve fazer parte como célula importante.

14º. Nunca traiam a confiança de seu semelhante.

Os amigos devem ser respeitados e uma amizade não pode ser traída.

A sentença busca valorizar o sentimento de amizade que deve ser pautado sempre, no respeito mútuo e na reciprocidade ética, que em hipótese alguma, podem ser esquecidos. “Um amigo vale mais do que um parente”. Esta afirmativa da sabedoria popular fundamenta-se no fato de que os parentes nos são impostos pelo destino, ao passo que, os amigos, cabem-nos escolher dentre as inúmeras pessoas que surgem no decorrer de nossas vidas. Se os elegemos de livre e espontânea vontade os nossos amigos, por que traí-los? Por que não dar a eles o mesmo tratamento que gostaríamos que nos dessem? Conservar as amizades e tratá-las com respeito e carinho é, acima de tudo, uma demonstração de sabedoria. As amizades devem ser cultuadas e ninguém deve criar animosidade entre amigos colocando em risco uma relação que pode representar um grande tesouro.

“Mais vale um amigo na praça do que dinheiro no banco”.

15º. Nunca revelem segredos que lhe são confiados; falar pouco e somente o necessário demonstra sabedoria.

Não se deve usar a religião para motivar a guerra e a separação dos homens.

A religião tem por finalidade única unir os homens através do criador. Não é concebível, portanto, que possa ser utilizada como elemento apartador dos seres humanos. Mesmo no âmbito de uma mesma religião pode-se verificar a atuação de pessoas que, de forma nefasta, e visando seus próprios interesses, jogam uns contra os outros, semeando a desconfiança e a discórdia entre sacerdotes, irmãos e adeptos. Muitas guerras, têm feito derramar o sangue de inocentes, enlutando famílias e propagando a dor e o pranto.A motivação religiosa que as incentiva é, no entanto, uma máscara para o seu motivo real: a obtenção do poder.

O verdadeiro sacerdote deve pugnar pela união dos homens, independente de seu credo religioso. Deus é um só e todos os homens são seus filhos e, por conseqüência, irmãos entre si. Da mesma forma, os sacerdotes de uma mesma religião devem agir dentro de uma ética que os impeça de falarem mal uns dos outros, utilizando-se de meios condenáveis para atrair os seguidores de outros templos coirmãos.

16º. Respeitem os que possuem cargos de responsabilidade maior; o Bàbáláwo é um Pai, portanto, é devido grande respeito aos Pais.

Nunca faltar com respeito com um outro sacerdote. Todos aqueles que possuem cargos religiosos são importantes e dignos de respeito.

Uma única palavra pode sintetizar o 16º mandamento de Ifá: Ética. Os sacerdotes, independente de funções e hierarquia, devem respeitar-se mutuamente. A falta de ética entre os sacerdotes de nossa religião, muito tem colaborado para o seu enfraquecimento e falta de credibilidade pública. O sacerdote dotado de postura ética religiosa, jamais abre a boca para apontar erros e defeitos em seus irmãos. Se os constata, procura corrigi-los de forma sutil e, se possível, despercebida aos olhos alheios, sem alardear aquilo que considera errado. Muitas pessoas tentam encobrir os próprios erros e esconder a própria incompetência, apontando, de forma espalhafatosa, o erro e a incompetência dos outros. Esta é uma atitude incorreta que só tem prejudicado e impedido um maior desenvolvimento da nossa religião no Brasil.

Podem-se ouvir todas as noites, em programas de rádio produzidos e apresentados por pessoas do culto verdadeiros absurdos praticados em nome de nossa religião. As pessoas que se ocupam neste tipo de divulgação deveriam refletir um pouco mais sobre sua atuação e os malefícios que produz, não somente aos alvos de suas críticas, na maior parte das vezes exageradas e motivadas por problemas de ordem pessoal, mas na religião como um todo que, a cada divulgação enganosa feita, cai no descrédito e na execração pública. Cada denúncia divulgada publicamente representa uma nova arma para o arsenal dos detratores de nossa religião.

A seleção será feita, naturalmente, por Òrúnmìlà e pelos Àwon Òrìsà, através da ação de Ésù. Só a Olódùmarè (Deus) cabe julgar o que é certo e o que é errado. Só a Ele cabe separar o joio do trigo.

Mas os ancestrais não cumpriram as determinações de Deus (Olódùmarè), trazidas e mostradas por Òrúnmìlà. Deus (Olódùmarè) usa os Òrìsà para advertir o Homem, mas não obtém sucesso. O Homem não ouve os conselhos. Mesmo assim, o Homem ainda acusa a Òrúnmìla. Mais uma vez não reconhecendo seus próprios erros.

O Homem tem esse hábito, o de culpar os outros pelas suas maneiras erradas. Diante de tais atitudes, Deus fica desobrigado de cumprir Sua palavra com o Homem, permitindo então que o Homem morra idoso e venha a renascer jovem, para que uma nova caminhada de aprendizados se inicie, em outra vida, em outro lugar, e quem sabe assim, nessa nova etapa, o Homem aprenda os mandamentos de Ifá pondo fim a esse ciclo sofrido.

Assim se repetirão esses ciclos, até que o Homem aprenda a mudar, tornando-se um Egúngún Àgbà (Ancestral Ilustre) que recebe funções mais importantes no Òrun (no Mundo Espiritual)!

Não escreva mais a palavra Axé de forma errada!

30/11/2013

Por Mário Filho

Há uma grande dificuldade dos brasileiros em usar a língua Yorùbá corretamente. Um dos exemplos é o emprego da palavra Axé, cuja grafia correta em Yorùbá é Àṣẹ.

Axé já faz parte do léxico da língua portuguesa e assim ela deveria ser escrita pelas pessoas que não conseguem escrevê-la corretamente em Yorùbá. Segundo o dicionário “Priberam”, Axé quer dizer “energia vital de cada ser, força, energia sagrada de cada Orixá, conjunto de objetos onde essa força reside, casa de culto do Candomblé; expressão usada para se desejar felicidade” etc; já o dicionário “Michaelis” traz: “cada um dos objetos sagrados do orixá (pedras, ferros, recipientes etc.) que ficam no peji das casas de candomblé; alicerce mágico da casa do candomblé; boa sorte! felicidades!”; o dicionário “Aurélio” traz as mesmas significações.

Tentando usar a palavra Axé em sua grafia Yorùbá muitos a escrevem erroneamente, por desconhecerem as diferenças gráficas dessa língua, que é tonal, e cada uma de suas grafias tem significado diferente.

Assim temos visto escreverem Axé das seguintes formas, cujos significados são totalmente diversos da palavra Àṣẹ (lei, ordem, instrução, comando, força, poder):

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 – Àṣẹ̀ (porta larga);
– Àsè (ato de cozinhar; refeição comunitária);
– Asẹ́ (coador, peneira, filtro);
– Ase (animal da família do esquilo);
– Àṣẹ́ (menstruação, flor);
– Àṣé (expressão: to fora!);
– Àsé (bloquear, represar; desvio de comportamento);
– Áṣẹ́ (pássaro noturno – Macrodipteryx Longipennis);
– Àṣẹ (Axé – forma correta de se escrever)

Se você não sabe escrever Àṣẹ, escreva Axé e estará tudo bem!!

Para uma melhor compreensão do significado da palavra recomendo o texto do Irmão Luiz L. Marins, que pode ser encontrado em:

http://culturayoruba.wordpress.com/quandoasenaoeaxe/