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Codificação do ritual de Umbanda (1953)

14/11/2018

Por Mário Filho¹

Em 1953 o Presidente da União Espiritista de Umbanda do Brasil, Jayme Madruga, deu uma série de entrevistas ao Jornal “A Noite” do Rio de Janeiro. Em uma delas o Presidente apresentou a “codificação” do Ritual de Umbanda, ou seja, a União Espiritista de Umbanda do Brasil, que havia sido fundada sob as ordens do Caboclo das Sete Encruzilhadas (o “Guia-Chefe” do médium Zélio Fernandino de Moraes, dirigente da Tenda Nossa Senhora da Piedade), por meio de seu Presidente, estabeleceu como deveria ser o Ritual de Umbanda.

Essa “codificação”, segundo Jayme Madruga, surgiu logo depois do 1º Congresso de Espiritismo de Umbanda, realizado no Rio de Janeiro de 1941, em razão da necessidade de uniformizar o ritual praticado em diversas Casas de Umbanda.

Para ele a codificação do ritual “não foi feita ao sabor de opiniões pessoais ou de média de opiniões. Após vários meses de estudos e de receberem os chefes de terreiros e presidentes de tendas filiadas, sugestões do espíritos, na reunião do dia 4 de novembro de 1952, na sede da Tenda Espírita Nossa Senhora da Conceição, foi a codificação aprovada.”

O ritual ficou assim:

SESSÃO PÚBLICA DE CARIDADE

1) Cinco minutos antes, pelo menos, da hora do início dos trabalhos (20 ou 20:30 horas), os médiuns devem esta no Terreiro, concentrados em silêncio;

2) preparo do ambiente por meio do defumador, com ponto cantado, que pode ser um dos três constantes do anexo (o jornal não exibiu o anexo);

3) prece (proferida pelo diretor de Assistência Espiritual ou alguém credenciado para tal);

4) continuação do preparo do ambiente por meio de uma explanação doutrinária, filosófica, sobre a prática da Umbanda ou de moral (cerca de 15 minutos de duração);

5) declaração de abertura dos trabalhos em nome de Deus ou Zambi, de Oxalá ou Jesus, do Patrono da Casa, do Guia-Chefe da Casa e de todos os trabalhadores invisíveis de Umbanda;

Parágrafo único: Em dias de festa de Santo, a abertura deve ser feita em nome de Zambi, de Oxalá, do Santo do dia, do Patrono da Casa, do Guia-Chefe da Casa e de todos os trabalhadores invisíveis de Umbanda;

6) Ponto de Oxalá (cantado), que deve ser um dos constantes do anexo. Os médiuns de joelhos ou deitados, conforme organização da Casa;

7) Saudação ao patrono da Casa (ponto de prece) como no anterior;

Parágrafo único: em dias de festa de Santo, deve ser antes, saudado o santo do dia.

8) Ponto (cantado) da chamada do Guia-Chefe da Casa para sua incorporação ou não;

Parágrafo único: Quando o Guia-Chefe da Casa não incorporar, por qualquer motivo, deve ser tirado o ponto em seguida para o Guia substituto;

9) Saudação ao Guia-Chefe da Casa, de acordo com a organização de cada Tenda;

10) Ponto (cantado) de chamada dos Guias que vão trabalhar;

11) Início da parte espiritual propriamente dita, sessões de passes mediúnicos, correntes de descarga, doutrinação se obsessores, sessões de descarga de trabalhos etc.

ENCERRAMENTO

1) Ponto de subida dos Guias (menos o Guia-Chefe) depois de serem atendidos os assistentes ou terminados os trabalhos;

2) Saudação ao Guia-Chefe;

3) Ponto de Subida do Guia-Chefe;

4) Ponto-prece de despedida que deve ser cantado com os médiuns ajoelhados ou deitados, conforme a praxe da Casa;

5) Prece de agradecimento (final);

6) Declaração de encerramento dos trabalhos em nome de Deus ou Zambi, de Oxalá ou Jesus, do Patrono da Casa, do Guia-Chefe da Casa e de todos os trabalhadores invisíveis de Umbanda.

(Fonte: Jornal de Umbanda: órgão noticioso e doutrinário da União Espiritista de Umbanda. Rio de Janeiro, Mai-Jun 1953, nº 31, p. 1, 3)

 

jornal de umbanda

¹ Sacerdote afro-religioso. É dirigente do Templo Espiritual Pantera Negra e do Ilé Ifá Ajàgùnmàlè Olóòtọ́ Aiyé. Bacharel, Mestre e Doutor em Ciências Policiais de Segurança e Ordem Pública,  pelo Centro de Altos Estudos de Segurança; Especialista em Políticas Públicas de Gestão em Segurança Pública, Especialista e Mestre em Ciência da Religião (todas pela PUC/SP), Especialista em História da África e do Negro no Brasil pela UCAM/RJ. Professor do Programa de Pós Graduação (Mestrado e Doutorado) do Centro de Altos Estudo em Segurança. Endereço eletrônico: ezezide@gmail.com

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As Sete Linhas de Umbanda e suas controvérsias

14/11/2018

As Sete Linhas de Umbanda e suas controvérsias.

Por Mário Filho¹

Há uma grande dificuldade em se estabelecer quais seriam as Sete Linhas de Umbanda. Desde o início do desenvolvimento umbandista, as Sete Linhas fazem parte do corpus doutrinário dessa religião. Trazem-se, então, alguns dos exemplos de autores umbandistas, entre os quais não há consenso a respeito delas.

Preferiu-se fazer o registro de obras que foram escritas até o ano de 1952, em razão do desconhecimento que as novas gerações de umbandistas têm a respeito dos primórdios da Umbanda.

1933 – Leal de Souza

Para o escritor e poeta Leal de Souza, considerado o primeiro escritor umbandista, em sua obra “O Espiritismo, a Magia e as Sete Linhas de Umbanda” (Rio de Janeiro, s/e., 1933), as Sete Linhas de Umbanda são as seguintes:

1ª – Linha de Oxalá

2ª – Linha de Ogum

3ª – Linha de Euxoce (sic)

4ª – Linha de Xangô

5ª – Linha de Nha-San (sic)

6ª – Linha de Amanjar (sic)

7ª – Linha das Almas (ou do Santo, segundo o autor)

Leal de Souza, além de ser considerado o primeiro escritor umbandista, era o “porta-voz” da Tenda Nossa Senhora da Piedade, tida como a primeira Tenda de Umbanda no Brasil, que foi criada sob as ordens do Caboclo das Sete Encruzilhadas. Assim, Leal de Souza trazia em uma coluna no Jornal “A Noite” registros daquilo que acompanhava na Tenda Espírita Nossa Senhora da Piedade, dirigida por Zélio Fernandino de Moraes, ou seja, essa classificação era a que provavelmente Zélio seguia.

Leal de Souza foi membro da Tenda Nossa Senhora da Piedade por muitos anos, só a deixando quando recebeu ordens do Caboclo das Sete Encruzilhadas para fundar a sua própria Tenda de Umbanda, a Tenda Nossa Senhora da Conceição.

Vê-se que havia pouco conhecimento a respeito dos nomes dos Orixás. Durante muitos anos, e não só por Leal de Souza, o Orixá Oxóssi foi chamado de Euxoce, Iansã foi chamada de Nha-San e Iemanjá de Amanjar.

1939 – Waldemar L. Bento

Já para Waldemar L. Bento, em seu livro “A Magia no Brasil” (Rio de Janeiro: Oficinas Gráficas do Jornal do Brasil, 1939), as Sete Linhas, não são 07, mas, na verdade, 08:

1ª – Linha de Exu

2ª – Linha de Ogum

3ª – Linha de Xangô

4ª – Linha de Oxossi

5ª – Linha de Iemanjá

6ª – Linha de Oxalá

7ª – Linha das Almas

8ª – Linha de Oxum

Como se pode ver, Exu passa a ser o “cabeça” de uma das Linhas de Umbanda, a primeira.

1941 – 1º Congresso de Espiritismo de Umbanda

Em 1941, durante o 1º Congresso de Espiritismo de Umbanda, realizado no Rio de Janeiro, foram discutidas as Sete Linhas de Umbanda, sendo que as Linhas foram nomeadas de “grau de iniciação”, que são:

1º Grau de Iniciação – Almas

2º Grau de Iniciação – Xangô

3º Grau de Iniciação – Ogum

4º Grau de Iniciação – Iansã

5º Grau de Iniciação – Oxossi

6º Grau de Iniciação – Iemanjá

7º Grau de Iniciação – Oxalá

Em que pese o 1º Congresso ter sido convocado para estabelecer uma doutrina única a respeito do que seria a Umbanda, a distribuição das Sete Linhas não corresponde a nenhuma das que haviam sido divulgadas, nem mesmo a de Leal de Souza, a qual era a preconizada pela tenda Nossa Senhora da Piedade.

1942 – Lourenço Braga

Para Lourenço Braga, em seu livro “Umbanda e Quimbanda” (Rio de Janeiro: Livraria Jacintho, 1942), as Sete Linhas são as seguintes:

1ª – Linha de Santo ou de Oxalá

2ª – Linha de Iemanjá

3ª – Linha do Oriente

4ª – Linha de Oxoce (sic)

5ª – Linha de Xangô

6ª – Linha de Ogum

7ª – Linha Africana ou de São Cipriano

Lourenço Braga era um autor diametralmente oposto a qualquer aproximação com as raízes negras da Umbanda, afirmando que as práticas de origem africana só deveriam ser feitas “depois de ficar provado haver de fato necessidade de lançar mão desse recurso extremo” (p. 68). Todas as teorias racistas que grassavam no inicio do século XX, especialmente as que se desenvolveram com a eugenia, influenciaram o trabalho de Lourenço Braga, que dizia que os africanos eram maus e queriam prejudicar seus semelhantes e que a Umbanda “redimiria” as práticas fetichistas e maléficas praticadas pelos negros, especialmente ao aproximar a Umbanda do cristianismo de viés espírita.

1949 – Florisbela Maria de Souza Franco

Para Florisbela Maria de Souza Franco, em sua obra “Umbanda” (Rio de Janeiro: Ed. Aurora, 1949), as Sete Linhas são as seguintes:

1ª – Linha de Santo

2ª – Linha do Mar

3ª – Linha do Oriente

4ª – Linha de Oxossi

5ª – Linha de Xangô

6ª – Linha de Ogum

7ª – Linha Africana

Florisbela Maria de Souza Franco era uma espírita que abraçou a Umbanda, mas nunca deixou de lado o espiritismo e via que a Umbanda era parte do espiritismo kardecista.

Em seu livro “Umbanda”, pode-se ver a descrição que ela faz de sua própria obra como uma “obra mediúnica sobre este ramo de espiritismo prático, ditado pelos espíritos de Pai João, Mãe Maria da Serra e Aleijadinho, no Grupo Espírita Unidos pelo Amor de Jesus, em Juiz de Fora, MG”. (p.1)

Ela também afirma que a “Umbanda […] poderá ser modificada segundo o grau de aperfeiçoamento que uns e outros forem atingindo; seu desaparecimento, contudo, só se dará quando os homens se tornarem verdadeiros espíritas.” (p. 41)

Ela era conhecida como médium de psicografia, tendo escrito, também, o livro “Obras Psicografadas” (Rio de Janeiro : Jornal do Comercio, 1949).

1950 – Oliveira Magno

Para Oliveira Magno, em sua obra “A Umbanda Esotérica e Iniciática” (Rio de Janeiro: Ed. Aurora, 1950), as Sete Linhas são as seguintes:

1ª – Linha de Exu

2ª – Linha de Ogum

3ª – Linha de Xangô

4ª – Linha de Oxossi

5ª – Linha de Iemanjá

6ª – Linha de Oxalá

7ª – Linha de Omolu

Oliveira Magno foi autor de vários livros de Umbanda. Além do citado, escreveu “Adivinhe o futuro na bola de cristal” (Rio de Janeiro: Espiritualista, 1951), “A Umbanda e seus complexos” (Rio de Janeiro: Espiritualista, 1951), “Práticas de Umbanda” (Rio de Janeiro: Espiritualista, 1952), “Ritual Prático de Umbanda” (Rio de Janeiro: Espiritualista, 1953), “Antigas Orações da Umbanda” (Rio de Janeiro: Espiritualista, 1954), “Horóscopo na Umbanda” (Rio de Janeiro: Espiritualista, 1956), “Magia prática sexual” (Rio de Janeiro: Espiritualista, 1959) e “Umbanda e Ocultismo” (Rio de Janeiro: Espiritualista, 1960). Suas obras são claramente influenciadas pelas doutrinas ocultistas do século XIX e da teosofia de Helena P. Blavatsky.

1951 – Byron Torres de Freitas e Tata Tancredo da Silva Pinto

Já Para Byron Torres de Freitas e Tata Tancredo da Silva Pinto, na obra “Doutrina e Ritual de Umbanda” (Rio de Janeiro: Ed. Espiritualista, 1951), as Sete Linhas são:

1ª – Linha de Oxalá

2ª – Linha de Iemanjá

3ª – Linha de Ogum

4ª – Linha de Oxossi

5ª – Linha de Xangô

6ª – Linha de Oxum

7ª – Linha de Omolu

Tata Tancredo da Silva Pinto foi o incentivador da Umbanda Omolocô, que refutava as doutrinas racialistas que havia na literatura umbandista, tentando resgatar as raízes africanas da Umbanda, especialmente baseado nos Cultos de Nação do Candomblé e na Macumba carioca. Esse retorno à África trouxe muitos problemas a Tata Tancredo, que virou alvo de críticas de grande parte dos autores de Umbanda de sua época, pois esses queriam, a todo custo, retirar da Umbanda qualquer ligação com a África negra.

1952 – Aluízio Fontenelle

Para Aluízio Fontenelle, em sua obra “O espiritismo no conceito das religiões e a lei de Umbanda: venerável ordem espiritualista iniciática universal, templo de Alá” (Rio de Janeiro: Ed. Espiritualista, 1952), as Sete Linhas são:

1ª – Linha de Santo ou de Oxalá

2ª – Linha de Iemanjá ou de Iamanjá

3ª – Linha do Oriente ou da Magia

4ª – Linha de Oxosse (sic)

5ª – Linha de Xangô

6ª – Linha de Ogum

7ª – Linha Africana

Aluízio Fontenelle foi um autor bastante controverso. Foi o primeiro autor umbandista e escrever sobre Exu na Umbanda, relacionando-o com os demônios dos grimórios medievais. Deve-se a ele, principalmente, a construção de Exu como um demônio do universo judaico-cristão. Suas obras: “Exu” (Rio de Janeiro, Ed. Espiritualista, 1951), “A Umbanda através dos Séculos” (Rio de Janeiro: Edição da Organização Simões, 1953).

Como se pôde ver, em que pese a tentativa de se estabelecer quais seriam as Sete Linhas de Umbanda, não houve, desde os primórdios da Umbanda consenso a respeito delas. No entanto, pode-se dizer que as Sete Linhas que a Tenda Nossa Senhora da Piedade e que Leal de Souza registrou em seu livro, teria sido a “original”. Não se sabe os motivos dos autores divergirem a respeito delas, mas isso demonstra que nunca houve consenso e nunca haverá a respeito delas.

mp 4-4-18

 

¹ Sacerdote afro-religioso. É dirigente do Templo Espiritual Pantera Negra e do Ilé Ifá Ajàgùnmàlè Olóòtọ́ Aiyé. Bacharel, Mestre e Doutor em Ciências Policiais de Segurança e Ordem Pública,  pelo Centro de Altos Estudos de Segurança; Especialista em Políticas Públicas de Gestão em Segurança Pública, Especialista e Mestre em Ciência da Religião (todas pela PUC/SP), Especialista em História da África e do Negro no Brasil pela UCAM/RJ. Professor do Programa de Pós Graduação (Mestrado e Doutorado) do Centro de Altos Estudo em Segurança. Endereço eletrônico: ezezide@gmail.com

15 Fatos sobre as Religiões Tradicionais Africanas

29/06/2017

15 Fatos sobre as Religiões Tradicionais Africanas

Por Jacob K. Olupona[1]

Tradução: Mário Filho[2]

  1. Religião Tradicional Africana (RTA) se refere às religiões indígenas ou autóctones dos povos africanos. Ela trata de sua cosmologia, práticas rituais, símbolos, artes, sociedade, e assim por diante. Por ser a religião um modo de vida, relaciona-se com a cultura e a sociedade, na medida em que afetam a visão de mundo dos povos africanos.

  2. As RTA não estão estagnadas, mas são altamente dinâmicas e reagem constantemente a várias influências, como a velhice, a modernidade e os avanços tecnológicos.

  3. As RTA são menos tradições de fé e mais tradições vividas. Elas estão menos preocupados com doutrinas e muito mais com rituais, cerimônias e práticas vividas.

  4. Ao abordar a religião em África, os estudiosos geralmente falam de uma “herança tripla”, que é o legado triplo da religião indígena, do islamismo e do cristianismo que muitas vezes são encontrados lado a lado em muitas sociedades africanas.

  5. Enquanto aqueles que se identificam como praticantes das RTA são muitas vezes minoria, outros que se identificam como muçulmanos ou cristãos estão envolvidos em religiões tradicionais em um grau ou outro.

  6. Embora muitos africanos tenham se convertido ao islamismo e ao cristianismo, as RTA participam da vida social, econômica e política das sociedades africanas.

  7. As RTA se tornaram globais! O tráfico transatlântico de escravos levou ao crescimento das tradições de inspiração africana nas Américas, como o Candomblé no Brasil, a Santeria em Cuba ou Vodu no Haïti. Além disso, em muitos lugares como nos EUA e no Reino Unido se converteram em lugares onde há a presença de várias religiões tradicionais africanas, e a importância da diáspora para essas religiões está crescendo rapidamente. As religiões africanas também se tornaram uma atração importante para aqueles que viajam à África em peregrinações por causa do alcance global dessas tradições.

  8. Há uma série de grupos e movimentos de revitalização cujo objetivo principal é garantir que a prática dos adeptos da religião indígena africana, hoje ameaçada, sobreviva. Estes podem ser encontrados em todas as Américas e Europa.

  9. As preocupações com saúde, prosperidade e procriação são muito importantes para o núcleo das religiões africanas. É por isso que eles desenvolveram instituições para a cura, comércio e o bem-estar geral de seus próprios praticantes, bem como dos adeptos de outras religiões também.

  10. As RTA não se baseiam na conversão como o Islã e o Cristianismo. Elas tendem a propagar a coexistência pacífica e promovem boas relações com os membros de outras tradições religiosas que as cercam.

  11. Hoje, como tradição minoritária, as RTA sofrem imensamente com os abusos dos direitos humanos. Isto é baseado em equívocos que afirmam que essas religiões são antitéticas e contrárias à modernidade. De fato, as RTA forneceram o modelo para conversas robustas e pensamentos sobre as relações comunitárias, o diálogo inter-religioso, a sociedade civil e a religião civil.

  12. As mulheres desempenham um papel fundamental na prática das RTA, sendo que as relações e dinâmicas internas de gênero são muito profundas. Existem muitas divindades femininas, juntamente com os homólogos masculinos. Existem sacerdotisas, divinadoras e outras figuras, sendo que muitas estudiosas feministas extraíram dessas tradições modelos de defensa dos direitos das mulheres e o lugar do feminino nas sociedades africanas. A abordagem tradicional das religiões indígenas africanas ao gênero é de complementaridade, na qual uma confluência de forças masculinas e femininas deve operar em harmonia.

  13. As RTA contêm uma grande sabedoria e uma visão sobre como os seres humanos podem viver e interagir melhor com o meio ambiente. Dada a nossa atual crise cológica iminente, as RTA têm muito para oferecer aos países africanos e ao mundo em geral.

  14. As RTA estabelecem fortes ligações entre a vida humana e o mundo dos antepassados. Os seres humanos são, assim, capazes de manter relações constantes e simbióticas com seus antepassados, que são entendidos como intimamente preocupados e envolvidos nos assuntos cotidianos de seus descendentes.

  15. Ao contrário de outras religiões do mundo que se baseiam em livros sagrados, as fontes orais formam o núcleo das RTA. Essas fontes orais estão estreitamente imbricadas nas artes, na estrutura política e social e na cultura material. A natureza oral dessas tradições permite uma grande adaptabilidade e variação dentro de e entre as RTA. Ao mesmo tempo, formas de oralidade – como a tradição de Ifá entre os yorùbá – podem servir como importantes fontes à compreensão de seus adeptos, bem como a visão de mundo dessas religiões podem servir de análises às escrituras, como a Bíblia ou o Alcorão.

Original em: https://blog.oup.com/2014/05/15-facts-on-african-religions/

[1] A biografia do autor pode ser vista em: http://hwpi.harvard.edu/files/hds/files/jacob_olupona_cv.pdf

[2] Sacerdote afro-religioso. É dirigente do Templo Espiritual Pantera Negra e do Ilé Ifá Ajàgùnmàlè Olóòtọ́ Aiyé. Bacharel, Mestre e Doutor em Ciências Policiais de Segurança e Ordem Pública,  pelo Centro de Altos Estudos de Segurança; Especialista em Políticas Públicas de Gestão em Segurança Pública, Especialista e Mestre em Ciência da Religião (todas pela PUC/SP), Especialista em História da África e do Negro no Brasil pela UCAM/RJ. Professor do Programa de Pós Graduação (Mestrado e Doutorado) do Centro de Altos Estudo em Segurança. Endereço eletrônico: ezezide@gmail.com

Jogo de Búzios se ensina em curso?

29/06/2017

“Jogo de Búzios” se ensina em curso?[1]

Por Mário Filho[2]

 

Antes de dar a resposta à pergunta, quero fazer algumas considerações. Se não tiver paciência de lê-las, basta ir ao final do texto para ver a resposta!

Há alguns anos, uma pessoa que me é muito cara, Irmã em Orixá, teve o seguinte diálogo comigo:

Ela: “- Bàbá, o Sr. conhece o livro do José Beniste, Jogo de Búzios?”

Eu: “- Conheço, eu o tenho!”

Ela: “- O livro é bom?”

Eu: “- Como assim?”

Ela: “- Dá para aprender a jogar búzios por esse livro?”

Eu: “- Mas por que você quer um livro para aprender a jogar búzios?”

Ela: “- É porque o Pai de Santo só vai me dar a ‘mão de búzios’ se eu provar que sei as quedas!”

Eu: “- Mas ele não te ensinou?”

Ela: “- Não, ele me mandou procurar um livro que ensinasse jogo para que eu conheça as quedas, para só depois me ensinar como ele joga. O Sr. pode me emprestar esse livro?”

Eu: “- Claro que posso.”

Encerremos assim o diálogo.

 

Mais ou menos, na mesma época, tive outro diálogo com um Babalorixá, com a obrigação de 14 anos feita (em uma Casa de Candomblé tradicionalíssima do Rio de Janeiro) e já com alguns “Filhos de Santo” iniciados e exímio na realização de ebós :

Ele: “- Pai, como é que o Sr. joga búzios?”

Eu: “- Por Odù!”

Ele: “- Como é que se joga assim, por Odù? O que é Odù?”

Eu: “- Odù é a formação dos búzios na peneira. O número de búzios abertos que saem na peneira corresponde a um Odù.”

Ele: “- E como é que o Sr. sabe o que cada uma das quedas quer dizer?”

Eu: “- Pelo estudo! Cada Odù corresponde àquilo que a pessoa deve fazer em sua vida, as oferendas que deve fazer, o que seguir e assim por diante. Eu estudei e continuo estudando sobre o que significa cada Odù, de forma a poder entender o que acontece com a pessoa e poder responder às perguntas dela.”

Continuando eu o questionei: “- Mas como é que o Sr. joga búzios, como o Sr. sabe qual é o Orixá da pessoa, quais são as oferendas que deve fazer, como ela pode sair da situação em que se encontra?”

Ele: “Pela intuição! Eu uso os búzios apenas para não me distrair. Eu jogo os búzios e espero vir alguma coisa na minha cabeça, alguma intuição!”

Eu: “- O Sr. não interpreta os Odùs?”

Ele: “- Não, aliás eu nem sei o que cada uma das quedas quer dizer! Eu nuca aprendi isso!”

Eu: “- O Sr. não aprendeu com o seu Pai de Santo a jogar búzios? O Sr. não teve que mostrar seu conhecimento das quedas quando deu sua obrigação de 07 anos?”

Ele: “- Sim, ele me ensinou a jogar como eu te falei. Ele me mandava jogar os búzios e esperar vir a intuição e é assim que eu faço! Quando tomei a obrigação de 07 anos e recebi meus direitos, foi assim que fiz!”

Eu: “- Entendi!”

Também encerramos assim esse diálogo.

 

Coloquei dois exemplos diferentes para que o leitor possa entender o que quero dizer com esse texto.

O oráculo conhecido no Brasil como “Jogo de Búzios” e na Nigéria “Owó Ẹyọ Mẹ́rìndílógún” (dezesseis búzios) é uma forma oracular da tradição afro-brasileira e de matriz africana, sendo uma das formas pela qual as pessoas podem consultar Ọ̀rúnmìlà e/ou outros Orixás, que está inserido no sistema divinatório Yorùbá. Nessas consultas, que podem ser feitas para a própria pessoa que joga ou para qualquer outra, o Sacerdote tentará “ver”/”olhar” a mensagem que o Odù formado transmite a ele. Para que o Sacerdote saiba o que quer dizer aquele Odù ele deve estudar muitos anos, de forma a aprender, sem dúvidas, o que cada um dos Odùs significa. Não há, para a consulta ao oráculo, nenhum tipo de transe. Não se espera ouvir alguma “voz do além”, não se espera a “incorporação” de alguma “entidade espiritual” para que ela interprete o que o Odù quer dizer, enfim, só é possível jogar búzios quando se sabe o que cada Odù quer dizer por meio das histórias (itàn) que estão ligadas a ele, bem como as diversas prescrições que ele traz.

Outra pergunta, então, surge: “- Como se pode aprender a interpretar os Odùs?” Respondo: há três maneiras! A primeira é aprender com seu Sacerdote, se ele souber e se ele se dispõe e quer ensiná-lo; a segunda é fazendo um curso com quem saiba, comprovadamente; e a terceira é adquirindo um bom livro. Vamos avaliar cada uma dessas maneiras:

1ª – Aprender com seu Sacerdote: creio ser essa a melhor maneira; entretanto dois problemas surgem: o Sacerdote se propõe a ensinar? ou o Sacerdote sabe o que ensinar? É necessário que as duas perguntas sejam respondidas afirmativamente, a fim de que o iniciado possa realmente aprender. Sabe-se, infelizmente, que muitos Sacerdotes não querem ou não podem ensinar o Jogo de Búzios aos seus “Filhos de Santo”. Não vou discutir as razões para isso, mas é uma realidade com a qual temos que lidar;

2ª – Aprender por meio de cursos: também creio ser uma boa proposta essa forma de aprendizado; entretanto, é necessário que se saiba quem ministrará o curso e sua experiência como divinador (olhador). Não conheço todos os cursos que são ministrados, mas temos, como exemplo, os cursos que eram ministrados pela saudosa Ialorixá Sandra Epega, bem como os cursos que são ministrados pelos Sacerdotes nigerianos Sikiru Salami (Prof. King) e Ogunjimi ou pelo Babalorixá Marcelo Monteiro;

3º – Adquirindo um bom livro: creio ser essa alternativa uma boa ideia; entretanto, é necessário que se saiba o que é um bom livro sobre o Jogo de Búzios e isso eu não posso lhes dizer, cada um terá que encontrar o seu próprio parâmetro de avaliação. Há alguns livros que conheço (e alguns deles eu os tenho) cujos autores se esforçaram em escrever sobre o Jogo de Búzios, entre eles posso citar: José Beniste (Jogo de Búzios: um encontro com o desconhecido, Ed. Bertrand Brasil)

, Agenor Miranda Rocha (Caminhos de Odu, Ed. Pallas), Marcelo Monteiro (Mérìndilogun: curso teórico e prático de jogo de búzios, s/ed.), Júlio Santana Braga (O Jogo de Búzios: Um Estudo de Adivinhação no Candomblé, Ed.Brasiliense), Tancredo da Silva Pinto (O Jogo dos Búzios, Ed. Eco), Fernandes Portugal (Manual prático do jogo de búzios por Odù e pelo jogo da Oxum: preceitos, iniciação e vivência, Ed. Cristális), Jorge Alberto Varanda (O Destino Revelado No Jogo De Búzios, Ed. Eco), Adilson Antônio Martins (O Jogo de Búzios por Odu, Ed. Pallas), Ronaldo Antônio Linares (Jogo de Búzios, Ed. Madras), Nívio Ramos Salles (Búzios: a Fala dos Orixás, Ed. Pallas) que deram sua interpretação de cada um dos Odùs, segundo aquilo que aprenderam e a visão da tradição em que estão inseridos e seguem. Cito, também, os autores: Willian Russel Bascom (Sixteen Cowries: Yoruba Divination from Africa to the New World, Ed. Indiana Universtity Press), Awo Falokun Fatunmbi (Merindinlogun: Orisa Divination Using 16 Cowries, Ed. CIPP) e Nia Jones-Morgan (Merindilogun Folktales: The Morals of the Patakis Relating Today’s Lifestyles, Ed. Artistic Engine LLC), Àbíkẹ́ Adéṣuyì (The Practice of Eerindinlogun Divination of Oore Yeye Osun Deity, Ed. Hosanna Printers) em inglês, que também trazem informações sobre o Jogo de Búzios.

Por sorte, tive um Sacerdote, Bàbá José Roberto de Lagorô, o qual morou quatro anos na Nigéria, especificamente em Ọ̀yọ́, que me ensinou a jogar búzios. Mesmo assim, fiz dois cursos de aperfeiçoamento com o Bàbá King, um curso com Bàbá Ogunjimi e comprei quatro livros de Sacerdotes Yorùbá que escreveram sobre o Owó Ẹyọ Mẹ́rìndílógún, a fim de melhor conhecer e assim interpretar o que cada um dos Odùs significam e transmitem.

Em face do exposto, não resta dúvidas que é possível sim aprender a jogar búzios em cursos. Essa é uma forma de se transmitir um ensinamento vivo, que é acessível a qualquer iniciado em Orixá. Além disso, ministrar cursos em que se aborde o que é o Jogo de Búzios, o que significam os Odùs, quais são as oferendas recomendadas, o que se deve ou não fazer etc., como informação, para esclarecimento das pessoas, não é nenhuma “quebra” de juramentos ou exposição de “segredos”, pois como já mostrei há inúmeros livros que tratam do assunto, cujos autores são referência ao Candomblé e à Umbanda.

Além disso, temos na Internet um sem-número de apostilas que ensinam o jogo de búzios, as quais são acessíveis a qualquer um, basta uma procura pela Rede.

Assim, não seja preconceituoso. Não condene aqueles que querem ensinar as pessoas, pois isso é um desserviço, não acrescenta nada. Se tiver críticas a fazer, elas são bem vindas, mas conheça, primeiro, quem está ministrando o curso, veja sua trajetória iniciática, comprove seu conhecimento, para depois apontar os erros, caso os encontre. Não meça as pessoas pela sua régua!

 

Obrigado,

Mário Filho

 

[1] Esse artigo é uma revisão do publicado em 2014.

[2] Sacerdote afro-religioso. É dirigente do Templo Espiritual Pantera Negra e do Ilé Ifá Ajàgùnmàlè Olóòtọ́ Aiyé. Bacharel, Mestre e Doutor em Ciências Policiais de Segurança e Ordem Pública,  pelo Centro de Altos Estudos de Segurança; Especialista em Políticas Públicas de Gestão em Segurança Pública, Especialista e Mestre em Ciência da Religião (todas pela PUC/SP), Especialista em História da África e do Negro no Brasil pela UCAM/RJ. Professor do Programa de Pós Graduação (Mestrado e Doutorado) do Centro de Altos Estudo em Segurança. Endereço eletrônico: ezezide@gmail.com

Como se dá a iniciação a Òrìṣà (Orixá) na Religião Tradicional Yorùbá (RTY)

21/06/2017

 

Como se dá a iniciação a Òrìṣà (Orixá) na Religião Tradicional Yorùbá (RTY)

Por Mario Filho (Awo Oníwindé Ifáṣọlá Ifárinú Olúsọjí Oyékàlẹ̀

É comum no terceiro dia de nascimento a família do recém-nascido levá-lo a uma consulta com um Sacerdote de Ifá (Babaláwo) ou um(a) Sacerdote(isa) de Òrìṣà (Babalórìṣà / Ìyálórìṣà). Nessa consulta, chamada de Àkọsẹ̀j̣ayé o Sacerdote falará sobre o destino da criança, suas proibições alimentares e de vestimentas, as profissões que lhe trarão mais sucesso etc.

Apurará, também, os Òrìṣà para os quais o recém-nascido deverá ser iniciado (isso dependerá da família e do local onde será feito o Àkọsẹ̀j̣ayé, pois cada família, cidade, comunidade tem sua própria dinâmica) ou se deverá ser iniciada em Ifá, Egúngún, Orò etc.

Assim, nessa primeira consulta, o Sacerdote fará as previsões para a criança e lhe dará um nome, que será anunciado publicamente no 7º dia, se for homem, no 8º dia, se forem gêmeos, ou no 9º dia, se for mulher. Essa cerimônia se chama Ìsọmọlórúkọ́ (cerimônia de dar o nome) e nela está incluso o ritual do Ẹsẹ̀ntáyé (colocar os pés no mundo). O nome que ela receberá será com base na consulta que o Sacerdote de Ifá ou de Òrìṣà fez, buscando a adequação de seu destino ao nome.

O recém-nascido, quando se tornar adulto, poderá, se quiser, fazer as iniciações recomendadas pelo Sacerdote no Àkọsẹ̀j̣ayé, mas isso não lhe será exigido por ninguém, a não ser que haja uma questão da comunidade em que ele está inserida, na qual a iniciação a Ifá, Òrìṣà ou a qualquer outro Irúnmọlẹ̀ faça parte da tradição daquela comunidade.

Entre os praticantes da RTY não há consagrações de 1, 3, 7, 14 e 21 anos.

Nas famílias em que as pessoas se iniciam para mais de um Òrìṣà, não há uma “disputa pelo Orì”, mesmo porque o Orì não “tem dono”, se não o próprio Olódùmarè.

Afirmar se é filho de Òrìṣà tal ou qual, para os seguidores das RTY, vai depender da família ou comunidade em que a pessoa se encontra. Há as famílias que são consideradas descendentes de um determinado Òrìṣà e, nesse caso, ele será o Òrìṣà tutelar da pessoa. Em outros casos isso se dará pelo Àkọsẹ̀j̣ayé e em outras em razão da inciação em Ifá (Ìtẹ̀fá), quando se saca o Odù da iniciação em Ifá, em que será apontado o que a pessoa deverá ou não fazer.

Espero ter ajudado!

Ire gbogbo o!

 

¹ Sacerdote afro-religioso. É dirigente do Templo Espiritual Pantera Negra e do Ilé Ifá Ajàgùnmàlè Olóòtọ́ Aiyé. Bacharel, Mestre e Doutor em Ciências Policiais de Segurança e Ordem Pública,  pelo Centro de Altos Estudos de Segurança; Especialista em Políticas Públicas de Gestão em Segurança Pública, Especialista e Mestre em Ciência da Religião (todas pela PUC/SP), Especialista em História da África e do Negro no Brasil pela UCAM/RJ. Professor do Programa de Pós Graduação (Mestrado e Doutorado) do Centro de Altos Estudo em Segurança. Endereço eletrônico: ezezide@gmail.com

INICIAR EM IFÁ: função exclusiva de um Babaláwo

27/08/2015

Por Mario Filho (Oníwindé Ifáṣọlá Ifárinú Olúsọjí Oyékàlẹ̀)*
Àbọrú, Àbọyè o!

Em um verso do Odù Ọ̀sá Òtúrá Ifá diz, já traduzido (Popoola, 2011):

Ọ̀sá Aláwo pergunta: “o que é verdade?”

Eu também pergunto: “o que é verdade?”

A verdade é o Olúwo do céu [mundo espiritual], que protege a Terra.

A verdade é o conhecimento invisível de Olódùmarè

Ọ̀sá Aláwo pergunta: “o que é verdade?”

Eu também pergunto: “o que é verdade?”

Ọ̀rúnmìlà diz que a verdade é o caráter de Olódùmarè

A verdade é a palavra inalterável, Ifá é a verdade

A verdade é a palavra indestrutível

A verdade é o poder que subjuga todos os demais poderes

A bênção perpétua consultou Ifá para o Planeta Terra

Aconselhou que todos os seus habitantes fossem verdadeiros, verazes e justos

Aquele que for verdadeiro receberá as bênçãos dos Irúnmọlẹ̀ [conjunto de seres espirituais, entre os quais estão os Òrìṣà]

 

Como se pode ver neste verso, Deus nos ordena que sejamos verdadeiros, verazes e justos. Se isso é obrigatório a todos os seres humanos, o que se dirá, então, dos Babaláwo (Sacerdotes de Ifá), que são os representantes de Ọ̀rúnmìlà na Terra (Àyé) e custódios da tradição de Ifá que, segundo a tradição Yorùbá (Nigéria), é a palavra de Deus?

A iniciação em Ifá se chama Ìtẹ̀fá (Ìtẹ̀nifá), que podemos traduzir como “colocar os pés (pisar) em Ifá”. Aqueles que passaram por esse ritual sabem do que estou falando.

As pessoas que passaram pelo Ìṣẹfá (Ifá Siṣẹ) não são iniciadas em Ifá, tão-somente receberam a Ọwọ́ Ifá Ọ̀kan (primeira mão de Ifá). Nessa cerimônia o “assentamento” de Ifá é entregue à pessoa, que passará a cultuar Ifá.

Os homens que passaram pelo Ìtẹ̀fá (Ìtẹ̀nifá) são chamados de Babaláwo e as mulheres que passaram pela mesma cerimônia são chamadas de Ìyánifá.

Há dois tipos de Babaláwo: os que estiveram no bosque sagrado (Igbo Odù), onde foram apresentados a Ìyà Odù (e serão chamados de Awo Ọlọ́dù)  e os que não estiveram (e serão chamados de Awo Ẹlẹ́gán). O ritual de entrar no bosque sagrado e ser apresentado a Ìyà Odù se chama Ìtẹ̀lodù. Não discorrerei, neste artigo, sobre as diferenças de cada tipo de Babaláwo, bem como suas funções, mas é necessário que se explique que o Ìtẹ̀lodù faz parte do Ìtẹ̀fá quando o iniciado tem como destino ser consagrado como Awo Ọlọ́dù.

Os Babaláwo e Ìyánifá podem realizar o Ìṣẹfá, ou seja, podem dar a qualquer pessoa a Ọwọ́ Ifá Ọ̀kan (primeira mão de Ifá), ambos podem, também, submeter uma pessoa à cerimônia de Ìtẹ̀fá, mas somente um Awo Ọlọ́dù pode submeter alguém ao Ìtẹ̀lodù. Além disso, para realização do Ìtẹ̀nifá (Ìtẹ̀fá) é necessária a presença de, pelo menos, três Babaláwo, sendo que é obrigatório que um deles seja Awo Ọlọ́dù, e uma Ìyánifá e todos terão funções específicas durante os rituais.

Alguém pode questionar: “por que ele está escrevendo sobre isso?”. Respondo: infelizmente há pessoas que não passaram pelo bosque sagrado, não foram apresentados a Ìyà Odù, que não são Awo (outra denominação para Babaláwo ou Ìyánifá) e começaram, há algum tempo, a escrever sobre Ifá, arvorando-se de um conhecimento que não possuem, que não fizeram nenhuma iniciação em Ifá, apenas passaram pelo Ìṣẹfá. Outros creem que foram iniciados em Ifá, ou seja, que passaram pelo Ìtẹ̀nifá (Ìtẹ̀fá) e pelo Ìtẹ̀lodù, mas foram apenas enganados, pois aqueles que lhes transmitiram essa “iniciação” não haviam passado por essas cerimônias.

Há alguns requisitos para que um Babaláwo inicie (faça o Ìtẹ̀fá) em alguém:

– ele precisa ter recebido o assentamento de Ìyà Odù ou algum dos Babaláwo presentes à cerimônia o tenha recebido e o leve para o local da cerimônia;

– ele precisa ter o Ọ̀pá Ọ̀rẹ̀rẹ̀ (ou Ọ̀pá Osùn) que é o cajado que representa o cajado de Ọ̀rúnmìlà; e

– ele precisa ter a companhia de dois Babaláwo (sendo que pelo menos um deles deverá ser Awo Ọlọ́dù) e de uma Ìyánifá, que dominem todas as fases do processo iniciatório.

Como disse anteriormente temos que ser verazes. Não cabe mentira no caminho de Ifá!

 

Kí Olódùmarè àti Ọ̀rúnmìlà á gbè wa o, láíláí!

Ìṣeṣẹ́ Lágbà pare ti!

Àṣẹ wa, Ire o!

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  • Sacerdote afro-religioso. É dirigente do Templo Espiritual Pantera Negra e do Ilé Ifá Ajàgùnmàlè Olóòtọ́ Aiyé. Bacharel, Mestre e Doutor em Ciências Policiais de Segurança e Ordem Pública,  pelo Centro de Altos Estudos de Segurança; Especialista em Políticas Públicas de Gestão em Segurança Pública, Especialista e Mestre em Ciência da Religião (todas pela PUC/SP), Especialista em História da África e do Negro no Brasil pela UCAM/RJ. Professor do Programa de Pós Graduação (Mestrado e Doutorado) do Centro de Altos Estudo em Segurança. Endereço eletrônico: ezezide@gmail.com

As “Umbandas” dentro da Umbanda

19/05/2015
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Este é um texto bastante explicativo sobre as diferentes manifestações de um fenômeno espiritual que acontece em solos brasileiros. Não concordo com muitas das coisas que estão aqui, não com relação ao escrito pelo autor, mas pela forma com que a Umbanda é trabalhada nas vertentes descritas.

Ainda não estão elencadas as novas manifestações da Umbanda, tais como a “Umbanda Astrológica”, “Umbanda Carismática”, “Umbanda Esotérica Ufológica” etc. Com o tempo, este artigo escrito por Renato Guimarães precisará ser ampliado.

Não podemos nunca esquecer que Umbanda é uma palavra africana, de origem já bastante conhecida, portanto há muitos erros no entendimento do que esse fenômeno espiritual representa.

Mas, vamos ao texto!

Original em: Registros de Umbanda, escrito por Renato Guimarães

 

As Umbandas dentro da Umbanda

Após pouco mais de 100 anos de fundação da Umbanda pelo Caboclo das Sete Encruzilhadas, essa religião cresceu e se diversificou, dando origem a diferentes vertentes que têm a mesma essência por base: a manifestação dos espíritos para a caridade.

O surgimento dessas diferentes vertentes é conseqüência do grau com que as características de outras práticas religiosas e/ou místicas foram absorvidas pela Umbanda em sua expansão pelo Brasil, reforçando o sincretismo que a originou e que ainda hoje é sua principal marca.

Embora essa classificação tenha sido elaborada por mim (ela não é fruto de um consenso entre os umbandistas e nem é adotada por outros estudiosos da religião), a mesma revela-se uma forma útil de condensar as diferentes práticas existentes, possibilitando um melhor estudo das mesmas.

Umbanda Branca e Demanda

Outros nomes: É também conhecida como: Alabanda; Linha Branca de Umbanda e Demanda; Umbanda Tradicional; Umbanda de Mesa Branca; Umbanda de Cáritas; e Umbanda do Caboclo das Sete Encruzilhadas.

Origem: É a vertente fundamentada pelo Caboclo das Sete Encruzilhadas, por Pai Antônio e Orixá Malê, através do seu médium, Zélio Fernandino de Morais (10/04/1891 – 03/10/1975), surgida em São Gonçalo, RJ, em 16/11/1908, com a fundação da Tenda Espírita Nossa Senhora da Piedade.

Foco de divulgação: O principal foco de divulgação dessa vertente é a Tenda Espírita Nossa Senhora da Piedade.

Orixás: Considera que orixá é um título aplicado a espíritos que alcançaram um elevado patamar na hierarquia espiritual, os quais representam, em missões especiais, de prazo variável, o alto chefe de sua linha. É pelos seus encargos comparável a um general: ora incumbido da inspeção das falanges, ora encarregado de auxiliar a atividade de centros necessitados de amparo, e, nesta hipótese fica subordinado ao guia geral do agrupamento a que pertencem tais centros. Acredita que existam 126 orixás, distribuídos em 06 linhas espirituais de trabalho. Os altos chefes de cada uma dessas seis linhas recebem o nome de um orixá nagô, embora não sejam entendidos como nas tradições africanas, existindo uma forte vinculação deles aos santos católicos.

Linhas de trabalho: Considera a existência de sete linhas de trabalho: de Oxalá (onde inclui os espíritos que se apresentam como Crianças), de Iemanjá, de Ogum, de Oxóssi, de Xangô, de Iansã e de Santo ou das Almas (onde inclui as almas recém-desencarnadas, os exus coroados, os exus batizados e as entidades auxiliares).

Entidades: Os trabalhos são realizados principalmente por Caboclos(as), Pretos(as) Velhos(as) e Crianças e não há giras para Boiadeiros, Baianos, Ciganos, Malandros, Exus e Pombagiras.

Ritualística: A roupa branca é a única vestimenta usada pelos médiuns durante as giras e encontra-se o uso de guias, imagens, fumo, defumadores, velas, bebidas e pontos riscados nos trabalhos, porém os atabaques não são utilizados nas cerimônias.

Livros doutrinários: Esta vertente usa os seguintes livros como principais fontes doutrinárias: “O livro dos espíritos”; “O livro dos médiuns”; “O evangelho segundo o Espiritismo”; e “O Espiritismo, a magia e as sete linhas de Umbanda”.

Umbanda Kardecista

Outros nomes: É também conhecida como: Umbanda de Mesa Branca; Umbanda Branca; e Umbanda de Cáritas.

Origem: É a vertente com forte influência do Espiritismo, geralmente praticada em centros espíritas que passaram a desenvolver giras de Umbanda junto com as sessões espíritas tradicionais. É uma das mais antigas vertentes, porém não existe registro da data e do local inicial em que começou a ser praticada.

Foco de divulgação: Não existe um foco principal de divulgação dessa vertente na atualidade.

Orixás: Nesta vertente não existe o culto aos Orixás nem aos santos católicos.

Linhas de trabalho: Nesta vertente não é utilizada essa forma de agrupar as entidades.

Entidades: Os trabalhos de Umbanda são realizados apenas por Caboclos(as), Pretos(as) Velhos(as) e, mais raramente, Crianças.

Ritualística: A roupa branca é a única vestimenta usada pelos médiuns durante as giras e não são encontrados o uso de guias, imagens, fumo, defumadores, velas, bebidas e atabaques.

Livros doutrinários: Esta vertente usa os seguintes livros como principais fontes doutrinárias: “O livro dos espíritos”; “O livro dos médiuns”; “O evangelho segundo o Espiritismo”; “O céu e o inferno”; e “A gênese”.

Umbanda Mirim

Outros nomes: É também conhecida como: Aumbandã; Escola da Vida; Umbanda Branca; Umbanda de Mesa Branca; e Umbanda de Cáritas.

Origem: É a vertente fundamentada pelo Caboclo Mirim através do seu médium Benjamin Gonçalves Figueiredo (26/12/1902 – 03/12/1986), surgida no Rio de Janeiro, RJ, em 13/03/1924, com a fundação da Tenda Espírita Mirim.

Foco de divulgação: Os principais focos de divulgação dessa vertente são: a Tenda Espírita Mirim (matriz e filiais); e o Primado de Umbanda, fundado em 1952.

Orixás: Nesta vertente não existe o culto aos santos católicos e os Orixás foram reinterpretados de maneira totalmente distinta das tradições africanas, não havendo nenhuma vinculação dos mesmos com elas. Considera a existência de nove Orixás: Oxalá, Ogum, Oxóssi, Xangô, Obaluaiê, Iemanjá, Oxum, Iansã e Nanã.

Linhas de trabalho: Considera a existência de sete linhas de trabalho: de Oxalá, de Iemanjá (onde inclui Iemanjá, Oxum, Iansã, Nanã), de Ogum, de Oxóssi, de Xangô, do Oriente (onde agrupa as entidades orientais) e de Yofá (onde agrupa os Pretos-Velhos e as Pretas-Velhas).

Entidades: Os trabalhos são realizados principalmente por Caboclos(as), Pretos(as)-Velhos(as) e Crianças e não há giras para Exus e Pombagiras, uma vez que estes últimos não são considerados trabalhadores da Umbanda e sim da Quimbanda.

Ritualística: A roupa branca com pontos riscados bordados é a única vestimenta usada pelos médiuns durante as giras e encontra-se o uso de fumo, defumadores e a imagem de Jesus Cristo nos trabalhos, porém as guias, velas, bebidas, atabaques e demais imagens não são usados nas cerimônias, havendo o uso de termos de origem tupi para designar o grau dos médiuns nelas.

Livros doutrinários: Esta vertente usa os seguintes livros como principais fontes doutrinárias: “Okê, Caboclo”; “O livro dos espíritos”; “O livro dos médiuns”; e “O evangelho segundo o Espiritismo”.

Umbanda Popular

Outros nomes: É também conhecida como: Umbanda Cruzada; e Umbanda Mística.

Origem: É uma das mais antigas vertentes, fruto da umbandização de antigas casas de Macumbas, porém não existe registro da data e do local inicial em que começou a ser praticada. É a vertente mais aberta a novidades, podendo ser comparada, guardada as devidas proporções, com o que alguns estudiosos da religião identificam como uma característica própria da religiosidade das grandes cidades do mundo ocidental na atualidade, onde os indivíduos escolhem, como se estivessem em um supermercado, e adotam as práticas místicas e religiosas que mais lhe convêm, podendo, inclusive, associar aquelas de duas ou mais religiões.

Foco de divulgação: Não existe um foco principal de divulgação dessa vertente na atualidade, uma vez que não existe uma doutrina comum em seu interior. Entretanto, é a vertente mais difundida em todo o país.

Orixás: Nesta vertente encontra-se um forte sincretismo dos santos católicos com os Orixás, associados a um conjunto de práticas místicas e religiosas de diversas origens adotadas pela população em geral, tais como: rezas, benzimentos, simpatias, uso de cristais, incensos, patuás e ervas para o preparo de banhos de purificação e chás medicinais. Considera a existência de dez Orixás: Oxalá, Ogum, Oxóssi, Xangô, Obaluaiê, Iemanjá, Oxum, Iansã, Nanã e Ibejis. Em alguns lugares também são cultuados mais dois Orixás: Ossaim e Oxumaré.

Linhas de trabalho: Existem três versões para as linhas de trabalho nesta vertente:

  • Na mais antiga, são consideradas a existência de sete linhas de trabalho: de Oxalá (onde inclui as Crianças), de Iemanjá (onde inclui Iemanjá, Oxum, Nanã), de Ogum, de Oxóssi, de Xangô (onde inclui Xangô e Iansã), do Oriente (onde agrupa as entidades orientais) e das Almas (onde agrupa os Pretos-Velhos e as Pretas-Velhas);
  • Na intermediária, também são consideradas a existência de sete linhas de trabalho: de Oxalá, de Iemanjá (onde inclui Iemanjá, Oxum, Nanã), de Ogum, de Oxóssi, de Xangô (onde inclui Xangô e Iansã), das Crianças e das Almas (onde agrupa os Pretos-Velhos e as Pretas-Velhas);
  • Na mais recente, são consideradas como linha de trabalho cada tipo de entidade: de Caboclos(as), de Pretos(as)-Velhos(as), de Crianças, de Baianos(as), etc.

Entidades: Os trabalhos são realizados por diversas entidades: Caboclos(as), Pretos(as)-Velhos(as), Crianças, Boiadeiros, Baianos(as), Marinheiros, Sereias, Ciganos(as), Exus, Pombagiras, Exus-Mirins e Malandros(as).

Ritualística: Embora a roupa branca seja a vestimenta principal dos médiuns, essa vertente aceita o uso de roupas de outras cores pelas entidades, bem como o uso de complementos (tais como capas e cocares) e de instrumentais próprios (espada, machado, arco, lança, etc.). Nela encontra-se o uso de guias, imagens, fumo, defumadores, velas, bebidas, cristais, incensos, pontos riscados e atabaques nos trabalhos.

Livros doutrinários: Esta vertente não possui um livro específico como fonte doutrinária.

Umbanda Omolocô

Outros nomes: É também conhecida como Umbanda Traçada.

Origem: É fruto da umbandização de antigas casas de Omolocô, porém não existe registro da data e do local inicial em que começou a ser praticada. Começou a ser fundamentada pelo médium Tancredo da Silva Pinto (10/08/1904 – 01/09/1979) em 1950, no Rio de Janeiro, RJ.

Foco de divulgação: Os principais focos de divulgação dessa vertente são: os noves livros escritos por Tancredo da Silva Pinto; as tendas criadas por seus iniciados; e o livro “Umbanda Omolocô”, escrito por Caio de Omulu.

Orixás: Nesta vertente encontra-se um forte sincretismo dos Orixás com os santos católicos, sendo que aqueles estão vinculados às tradições africanas, principalmente as do Omolocô. Considera a existência de nove Orixás: Oxalá, Ogum, Oxóssi, Xangô, Obaluaiê, Iemanjá, Oxum, Iansã e Nanã.

Linhas de trabalho: Considera como linha de trabalho cada tipo de entidade: de Caboclos(as), de Pretos(as)-Velhos(as), de Crianças, de Baianos, etc.

Entidades: Os trabalhos são realizados por diversas entidades: Falangeiros de Orixá, Caboclos(as), Pretos(as)-Velhos(as), Crianças, Boiadeiros, Baianos(as), Marinheiros, Sereias, Ciganos(as), Exus, Pombagiras e Malandros(as).

Ritualística: Embora a roupa branca seja a vestimenta principal dos médiuns, essa vertente aceita o uso de roupas de outras cores pelas entidades, bem como o uso de complementos (tais como capas e cocares) e de instrumentais próprios (espada, machado, arco, lança, etc.). Nela encontra-se o uso de guias, imagens, fumo, defumadores, velas, bebidas, cristais, incensos, pontos riscados e atabaques nos trabalhos. Nesta vertente também são utilizadas algumas cerimônias de iniciação e avanço de grau semelhantes à forma como são realizadas no Omolocô, incluindo o sacrifício de animais.

Livros doutrinários: Esta vertente usa os seguintes livros como principais fontes doutrinárias: “A origem de Umbanda”; “As mirongas da Umbanda”; “Cabala Umbandista”; “Camba de Umbanda”; “Doutrina e ritual de Umbanda”; “Fundamentos da Umbanda”; “Impressionantes cerimônias da Umbanda”; “Tecnologia ocultista de Umbanda no Brasil”; e “Umbanda: guia e ritual para organização de terreiros”.

Umbanda Almas e Angola

Outros nomes: É também conhecida como Umbanda Traçada.

Origem: É fruto da umbandização de antigas casas de Almas e Angola, porém não existe registro da data e do local inicial em que começou a ser praticada.

Foco de divulgação: Não existe um foco principal de divulgação dessa vertente na atualidade, uma vez que não existe uma doutrina comum em seu interior.

Orixás: Nesta vertente encontra-se um forte sincretismo dos Orixás com os santos católicos, sendo que aqueles estão vinculados às tradições africanas, principalmente as do Almas e Angola. Considera a existência de nove Orixás: Oxalá, Ogum, Oxóssi, Xangô, Obaluaiê, Iemanjá, Oxum, Iansã e Nanã.

Linhas de trabalho: Considera a existência de sete linhas de trabalho: de Oxalá, do Povo d’Água (onde inclui Iemanjá, Oxum, Nanã e Iansã), de Ogum, de Oxóssi, de Xangô, das Beijadas (onde agrupa as Crianças) e das Almas (onde inclui Obaluaiê e agrupa os Pretos-Velhos e as Pretas-Velhas).

Entidades: Os trabalhos são realizados por diversas entidades: Falangeiros de Orixá, Caboclos(as), Pretos(as)-Velhos(as), Crianças, Boiadeiros, Baianos(as), Marinheiros, Exus e Pombagiras.

Ritualística: Embora a roupa branca seja a vestimenta principal dos médiuns, essa vertente aceita o uso de roupas de outras cores pelas entidades, bem como o uso de complementos (tais como capas e cocares) e de instrumentais próprios (espada, machado, arco, lança, etc.). Nela encontra-se o uso de guias, imagens, fumo, defumadores, velas, bebidas, cristais, incensos, pontos riscados e atabaques nos trabalhos. Nesta vertente também são utilizadas algumas cerimônias de iniciação e avanço de grau semelhantes à forma como são realizadas no Almas e Angola, incluindo o sacrifício de animais.

Livros doutrinários: Esta vertente não possui um livro específico como fonte doutrinária.

Umbandomblé

Outros nomes: É também conhecida como Umbanda Traçada.

Origem: É fruto da umbandização de antigas casas de Candomblé, notadamente as de Candomblé de Caboclo, porém não existe registro da data e do local inicial em que começou a ser praticada. Em alguns casos, o mesmo pai-de-santo (ou mãe-de-santo) celebra tanto as giras de Umbanda quanto o culto do Candomblé, porém em sessões diferenciadas por dias e horários.

Foco de divulgação: Não existe um foco principal de divulgação dessa vertente na atualidade.

Orixás: Nesta vertente existe um culto mínimo aos santos católicos e os Orixás são fortemente vinculados às tradições africanas, principalmente as da nação Ketu, podendo inclusive ocorrer a presença de outras entidades no panteão que não são encontrados nas demais vertentes da Umbanda (Oxalufã, Oxaguiã, Ossain, Obá, Ewá, Logun-Edé, Oxumaré).

Linhas de trabalho: Considera como linha de trabalho cada tipo de entidade: de Caboclos(as), de Pretos(as)-Velhos(as), de Crianças, de Baianos, etc.

Entidades: Os trabalhos são realizados por diversas entidades: Falangeiros de Orixá, Caboclos(as), Pretos(as)-Velhos(as), Crianças, Boiadeiros, Baianos(as), Marinheiros, Sereias, Ciganos(as), Exus, Pombagiras e Malandros(as).

Ritualística: Embora a roupa branca seja a vestimenta principal dos médiuns, essa vertente aceita o uso de roupas de outras cores pelas entidades, bem como o uso de complementos (tais como capas e cocares) e de instrumentais próprios (espada, machado, arco, lança, etc.). Nela encontra-se o uso de guias, imagens dos Orixás na representação africana, fumo, defumadores, velas, bebidas e atabaques nos trabalhos. Nesta vertente também são utilizadas algumas cerimônias de iniciação e avanço de grau semelhantes à forma como são realizadas nos Candomblés, incluindo o sacrifício de animais, podendo ser encontrado, também, curimbas cantadas em línguas africanas (banto ou iorubá).

Livros doutrinários: Esta vertente não possui um livro específico como fonte doutrinária.

Umbanda Eclética Maior

Outros nomes: Não possui.

Origem: É a vertente fundamentada por Oceano de Sá (23/02/1911 – 21/04/1985), mais conhecido como mestre Yokaanam, surgida no Rio de Janeiro, RJ, em 27/03/1946, com a fundação da Fraternidade Eclética Espiritualista Universal.

Foco de divulgação: Os principais focos de divulgação dessa vertente são a sede da fraternidade e suas regionais.

Orixás: Nesta vertente existe uma forte vinculação dos Orixás aos santos católicos, sendo que aqueles foram reinterpretados de maneira totalmente distinta das tradições africanas, não havendo nenhuma vinculação dos mesmos com elas. Considera a existência de pelo menos nove Orixás: Oxalá, Ogum, Ogum de Lei, Oxóssi, Xangô, Xangô-Kaô, Yemanjá, Ibejês e Yanci, sendo que um deles não existe nas tradições africanas (Yanci) e alguns deles seriam considerados manifestações de um Orixá em outras vertentes (Ogum de Lei/Ogum e Xangô-Kaô/Xangô).

Linhas de trabalho: Considera a existência de sete linhas de trabalho, fortemente associadas a santos católicos: de São Jorge (Ogum), de São Sebastião (Oxóssi), de São jerônimo (Xangô), de São João Batista (Xangô-Kaô), de São Custódio (Ibejês), de Santa Catarina de Alexandria (Yanci) e São Lázaro (Ogum de Lei).

Entidades: Os trabalhos são realizados principalmente por Caboclos(as), Pretos(as)-Velhos(as), e Crianças.

Ritualística: A roupa branca é a vestimenta usada pelos médiuns durante as giras e encontra-se o uso de uma cruz, um quadro com o rosto de Jesus Cristo, velas, porém os atabaques, as guias, as bebidas e fumo não são utilizados nas cerimônias.

Livros doutrinários: Esta vertente usa os seguintes livros como principais fontes doutrinárias: “Evangelho de Umbanda”; “Manual do instrutor eclético universal”; “Yokaanam fala à posteridade”; e “Princípios fundamentais da doutrina eclética”.

Aumbhandã

Outros nomes: É também conhecida como: Umbanda Esotérica; Aumbhandan; Conjunto de Leis Divinas; Senhora da Luz Velada; e Umbanda de Pai Guiné.

Origem: É a vertente fundamentada por Pai Guiné de Angola através do seu médium Woodrow Wilson da Matta e Silva, também conhecido com mestre Yapacani (28/06/1917 – 17/04/1988), surgida no Rio de Janeiro, RJ, em 1956, com a publicação do livro “Umbanda de todos nós”. Sua doutrina é fortemente influenciada pela Teosofia, pela Astrologia, pela Cabala e por outras escolas ocultistas mundiais e baseada no instrumento esotérico conhecido como Arqueômetro, criado por Saint Yves D’Alveydre e com o qual se acredita ser possível conhecer uma linguagem oculta universal que relaciona os símbolos astrológicos, as combinações numerológicas, as relações da cabala e o uso das cores.

Foco de divulgação: Os principais focos de divulgação dessa vertente são: os noves livros escritos por Matta e Silva; e as tendas e ordens criadas por seus discípulos.

Orixás: Nesta vertente não existe o culto aos santos católicos e os Orixás foram reinterpretados de maneira totalmente distinta das tradições africanas, não havendo nenhuma vinculação dos mesmos com elas. Considera a existência de sete Orixás: Orixalá, Ogum, Oxóssi, Xangô, Yemanjá, Yori, Yorimá, sendo que dois deles não existem nas tradições africanas (Yori e Yorimá).

Linhas de trabalho: Considera a existência de sete linhas de trabalho, que recebem o nome dos Orixás: de Oxalá, de Yemanjá, de Ogum, de Oxóssi, de Xangô, de Yori (onde agrupa as Crianças) e de Yorimá (onde agrupa os Pretos-Velhos e as Pretas-Velhas).

Entidades: Os trabalhos são realizados somente por Caboclos(as), Pretos(as)-Velhos(as), Crianças e Exus, sendo que estes últimos não são considerados trabalhadores da Umbanda e sim da Quimbanda.

Ritualística: A roupa branca é a vestimenta usada pelos médiuns durante as giras e encontra-se o uso de guias feitas de elementos naturais, um quadro com o rosto de Jesus Cristo, fumo, defumadores, velas, bebidas, cristais e tábuas com ponto riscado nos trabalhos, porém os atabaques não são utilizados nas cerimônias.

Livros doutrinários: Esta vertente usa os seguintes livros como principais fontes doutrinárias: “Doutrina secreta da Umbanda”; “Lições de Umbanda e Quimbanda na palavra de um Preto-Velho”; “Mistérios e práticas da lei de Umbanda”; “Segredos da magia de Umbanda e Quimbanda”; “Umbanda de todos nós”; “Umbanda do Brasil”; “Umbanda: sua eterna doutrina”; “Umbanda e o poder da mediunidade”; e “Macumbas e Candomblés na Umbanda”.

Umbanda Guaracyana

Outros nomes: Não possui.

Origem: É a vertente fundamentada pelo Caboclo Guaracy através do seu médium Sebastião Gomes de Souza (1950 – ), mais conhecido como Carlos Buby, surgida em São Paulo, SP, em 02/08/1973, com a fundação da Templo Guaracy do Brasil.

Foco de divulgação: Os principais focos de divulgação dessa vertente são os Templos Guaracys do Brasil e do Exterior.

Orixás: Nesta vertente não existe o culto aos santos católicos e os Orixás foram reinterpretados em relação às tradições africanas, havendo, entretanto, uma ligação dos mesmos com elas. Considera a existência de dezesseis Orixás, divididos em quatro grupos, relacionados aos quatro elementos e aos quatro pontos cardeais: Fogo/Sul (Elegbara, Ogum, Oxumarê, Xangô), Terra/Oeste (Obaluaiê, Oxóssi, Ossãe, Obá), Norte/Água (Nanã, Oxum, Iemanjá, Ewá) e Leste/Ar (Iansã, Tempo, Ifá e Oxalá).

Linhas de trabalho: Considera como linha de trabalho cada tipo de entidade: de Caboclos(as), de Pretos(as)-Velhos(as), de Crianças, de Baianos, etc.

Entidades: Os trabalhos são realizados por diversas entidades: Caboclos(as), Pretos(as)-Velhos(as), Crianças, Boiadeiros, Baianos(as), Marinheiros, Ciganos(as), Exus e Pombagiras.

Ritualística: Roupas coloridas (na cor do Orixá) são a vestimenta usada pelos médiuns durante as giras e encontra-se o uso de guias, fumo, defumadores, velas e atabaques nos trabalhos, porém não são utilizadas imagens e bebidas nas cerimônias.

Livros doutrinários: Esta vertente não possui um livro específico como fonte doutrinária.

Umbanda dos Sete Raios

Outros nomes: Não possui.

Origem: É a vertente fundamentada por Ney Nery do Reis (Itabuna, (26/09/1929 – ), mais conhecido como Omolubá, e por Israel Cysneiros, surgida no Rio de Janeiro, RJ, em novembro de 1978, com a publicação do livro “Fundamentos de Umbanda – Revelação Religiosa”

Foco de divulgação: Os principais focos de divulgação dessa vertente são as obras escritas por Omolubá e as tendas criadas por seus discípulos.

Orixás: Nesta vertente não existe o culto aos santos católicos e os Orixás foram reinterpretados em relação às tradições africanas. Considera a existência de doze Orixás, divididos em sete raios: 1º raio, Iemanjá e Nanã; 2º raio, Oxalá; 3º raio, Omulu; 4º raio, Oxóssi e Ossãe; 5º raio, Xangô e Iansã; 6º raio, Oxum e Oxumaré; e 7º raio, Ogum e Ibejs.

Linhas de trabalho: Considera como linha de trabalho cada tipo de entidade: de Caboclos(as), de Pretos(as)-Velhos(as), de Crianças, de Baianos, etc.

Entidades: Os trabalhos são realizados por diversas entidades: Caboclos(as), Pretos(as)-Velhos(as), Crianças, Orientais, Boiadeiros, Baianos(as), Marinheiros, Ciganos(as), Pilintras, Exus e Pombagiras.

Ritualística: Embora a roupa branca seja a vestimenta principal dos médiuns, essa vertente aceita o uso de roupas de outras cores pelas entidades, bem como o uso de complementos (tais como capas e cocares) e de instrumentais próprios (espada, machado, arco, lança, etc.). Nela encontra-se o uso de guias, imagens de entidades, fumo, defumadores, velas, bebidas, pontos riscados e atabaques nos trabalhos.

Livros doutrinários: Esta vertente possui os seguintes livros e periódicos como fonte doutrinária: “ABC da Umbanda: única religião nascida no Brasil”; “Almas e Orixás na Umbanda”; “Cadernos de Umbanda”; “Fundamentos de Umbanda: revelação religiosa”; “Magia de Umbanda: instruções religiosas”; “Manual prático de jogos de búzios”; “Maria Molambo: na sombra e na luz”; “Orixás, mitos e a religião na vida contemporânea”; “Pérolas espirituais”; “Revista Seleções de Umbanda”; “Tranca Ruas das Almas: do real ao sobrenatural”; “Umbanda, poder e magia: chave da doutrina”; e “Yemanjá, a rainha do mar”.

Aumpram

Outros nomes: É também conhecida como: Aumbandhã; e Umbanda Esotérica.

Origem: É a vertente fundamentada por Pai Tomé (também chamado Babajiananda) através do seu médium, Roger Feraudy (1923 – 22/03/2006), surgida no Rio de Janeiro, RJ, em 1986, com a publicação do livro “Umbanda, essa desconhecida”. Esta vertente é uma derivação da Aumbhandã, das quais foi se distanciando ao adotar os trabalhos de apometria e ao desenvolver a sua doutrina da origem da Umbanda: considera que esta religião surgiu a 700.000 anos em dois continentes míticos perdidos, Lemúria e Atlântida, que teriam afundado no oceano em um cataclismo planetário. Nestes continentes, os terráqueos teriam vivido junto com seres extraterrestres, os quais teriam ensinado aqueles sobre o Aumpram, a verdadeira lei divina.

Foco de divulgação: Os principais focos de divulgação dessa vertente são: os livros escritos por Roger Feraudy; e as tendas e fraternidades criadas por seus discípulos.

Orixás: Nesta vertente não existe o culto aos santos católicos e os Orixás foram reinterpretados de maneira totalmente distinta das tradições africanas, não havendo nenhuma vinculação dos mesmos com elas. Considera a existência dos 7 Orixás da Umbanda Esotérica (Oxalá, Yemanjá, Ogum, Oxóssi, Xangô, Yori e Yorimá) e mais Obaluaiê, o qual consideram o Orixá oculto da Umbanda.

Linhas de trabalho: Considera a existência de sete linhas de trabalho, que recebem o nome dos 7 Orixás: de Oxalá, de Yemanjá, de Ogum, de Oxóssi, de Xangô, de Yori (onde agrupa as Crianças) e de Yorimá (onde agrupa os Pretos-Velhos e as Pretas-Velhas).

Entidades: Os trabalhos são realizados somente por Caboclos(as), Pretos(as)-Velhos(as), Crianças e Exus, sendo que estes últimos não são considerados trabalhadores da Umbanda e sim da Quimbanda.

Ritualística: A roupa branca é a vestimenta usada pelos médiuns durante as giras e encontra-se o uso da imagem de Jesus Cristo, fumo, defumadores, velas, cristais e incensos nos trabalhos, porém as guias e os atabaques não são utilizados nas cerimônias.

Livros doutrinários: Esta vertente usa os seguintes livros como principais fontes doutrinárias: “Umbanda, essa desconhecida”; “Erg, o décimo planeta”; “Baratzil: a terra das estrelas”; e “A terra das araras vermelhas: uma história na Atlântida”.

Ombhandhum

Outros nomes: É também conhecida como: Umbanda Iniciática; Umbanda de Síntese; e Proto-Síntese Cósmica.

Origem: É a vertente fundamentada pelo médium Francisco Rivas Neto (1950 – ), mais conhecido como Arhapiagha, surgida em São Paulo, SP, em 1989, com a publicação do livro “Umbanda: a proto-síntese cósmica”. Esta vertente começou como uma derivação da Umbanda Esotérica, porém aos poucos foi se distanciando cada vez mais dela, conforme ia desenvolvendo sua doutrina conhecida como movimento de convergência, que busca um ponto de convergência entre as várias vertentes umbandistas. Nela existe uma grande influência oriental, principalmente em termos de mantras indianos e utilização do sânscrito, e há a crença de que a Umbanda é originária de dois continentes míticos perdidos, Lemúria e Atlântida, que teriam afundado no oceano em um cataclismo planetário.

Foco de divulgação: Os principais focos de divulgação dessa vertente são: o livro “Umbanda: a proto-síntese cósmica”; a Faculdade de Teologia Umbandista, fundada em 2003; o Conselho Nacional da Umbanda do Brasil, fundado em 2005; e as tendas e ordens criadas pelos discípulos de Rivas Neto.

Orixás: Nesta vertente não existe o culto aos santos católicos e os Orixás foram reinterpretados de maneira totalmente distinta das tradições africanas, não havendo nenhuma vinculação dos mesmos com elas. Considera a existência dos 7 Orixás da Umbanda Esotérica, associados, cada um deles, a mais um Orixá, de sexo oposto, formando um casal: Orixalá-Odudua, Ogum-Obá, Oxóssi-Ossaim, Xangô-Oyá, Yemanjá-Oxumaré, Yori-Oxum, Yorimá-Nanã. Por esta associação nota-se que alguns Orixás tiveram seu sexo modificado em relação a tradição africana (Odudua e Ossaim).

Linhas de trabalho: Considera a existência de sete linhas de trabalho, que recebem o nome dos Orixás principais do par: de Oxalá, de Yemanjá, de Ogum, de Oxóssi, de Xangô, de Yori (onde agrupa as Crianças) e de Yorimá (onde agrupa os Pretos-Velhos e as Pretas-Velhas).

Entidades: Os trabalhos são realizados somente por Caboclos(as), Pretos(as)-Velhos(as), Crianças e Exus, sendo que estes últimos não são considerados trabalhadores da Umbanda e sim da Quimbanda.

Ritualística: A roupa branca é a vestimenta usada pelos médiuns durante as giras de Umbanda e a roupa preta, associada ao vermelho e branco, nas de Exu, sendo admitidos o uso de complementos por sobre a roupa dos médiuns, tais como cocares de caboclos. Nela encontra-se o uso de guias, fumo, defumadores, velas, bebidas, cristais, atabaques  e tábuas com ponto riscado nos trabalhos.

Livros doutrinários: Esta vertente usa o seguinte livro como principal fonte doutrinária: “Umbanda: a proto-síntese cósmica”.

Umbanda Sagrada

Outros nomes: Não possui.

Origem: É a vertente fundamentada por Pai Benedito de Aruanda e pelo Ogum Sete Espadas da Lei e da Vida, através do seu médium Rubens Saraceni (1951 – ), surgida em São Paulo, SP, em 1996, com a criação do Curso de Teologia de Umbanda. Sua doutrina procura ser totalmente independente das doutrinas africanistas, espíritas, católicas e esotéricas, pois considera que a Umbanda possui fundamentos próprios e independentes dessas tradições, embora reconheça a influências das mesmas na religião.

Foco de divulgação: Os principais focos de divulgação dessa vertente são: o Colégio de Umbanda Sagrada Pai Benedito de Aruanda, fundado em 1999; o Instituto Cultural Colégio Tradição de Magia Divina, fundado em 2001; a Associação Umbandista e Espiritualista do Estado de São Paulo, fundada em 2004; os livros escritos por Rubens Saraceni; o Jornal de Umbanda Sagrada editado por Alexandre Cumino; o programa radiofônico Magia da Vida; e os colégios e tendas criadas por seus discípulos.

Orixás: Nesta vertente os adeptos podem realizar o culto aos santos católicos da maneira que melhor lhes convier e os Orixás são entendidos como manifestações de Deus que ocorreram sobre diferentes nomes em diferentes épocas, sendo reinterpretados de maneira totalmente distinta das tradições africanas, não havendo nenhuma vinculação dos mesmos com elas. Considera a existência de catorze Orixás agrupados como casais em sete tronos divinos: Oxalá e Logunan (Trono da Fé); Oxum e Oxumaré (Trono do Amor); Oxóssi e Obá (Trono do Conhecimento); Xangô e Iansã (Trono da Justiça); Ogum e Egunitá (Trono da Lei); Obaluaiê e Nanã (Trono da Evolução); e Iemanjá e Omulu (Trono da Geração). Os sete primeiros de cada par são chamados Orixás Universais, responsáveis pela sustentação das ações retas e harmônicas, e os outros sete, Orixás Cósmicos, responsáveis pela atuação corretiva sobre as ações desarmônicas e invertidas, sendo que alguns deles seriam considerados manifestações do mesmo Orixá nas tradições africanas (Obaluaiê/Omulu e Iansã/Egunitá).

Linhas de trabalho: Considera como linha de trabalho cada tipo de entidade: de Caboclos(as), de Pretos(as)-Velhos(as), de Crianças, de Baianos, etc.

Entidades: Os trabalhos são realizados por diversas entidades: Caboclos(as), Pretos(as)-Velhos(as), Crianças, Boiadeiros, Baianos(as), Marinheiros, Sereias, Povo(s) do Oriente, Ciganos(as), Exus, Pombagiras, Exus-Mirins e Malandros(as).

Ritualística: A roupa branca é a vestimenta usada pelos médiuns durante as giras e encontra-se o uso de guias, fumo, defumadores, velas, bebidas, atabaques, imagens e pontos riscados nos trabalhos.

Livros doutrinários: Esta vertente usa toda a bibliografia publicada por Rubens Saracen, tendo os seguintes livros como principais fontes doutrinárias: “A evolução dos espíritos”; “A tradição comenta a evolução”; “As sete linhas de evolução”; “As sete linhas de Umbanda: a religião dos mistérios”; “Código de Umbanda”; “Doutrina e Teologia de Umbanda Sagrada”; “Formulário de consagrações umbandistas: livro de fundamentos”; “Hash-Meir: o guardião dos sete portais de luz”; “Lendas da criação: a saga dos Orixás”; “O ancestral místico”; “O código da escrita mágica simbólica”; “O guardião da pedra de fogo: as esferas positivas e negativas”; “O guardião das sete portas”; “O guardião dos caminhos: a história do senhor Guardião Tranca-Ruas”; “Orixá Exu-Mirim”; “Orixá Exu: fundamentação do mistério Exu na Umbanda”; “Orixá Pombagira”; “Orixás: teogonia de Umbanda”; “Os arquétipos da Umbanda: as hierarquias espirituais dos Orixás”; “Os guardiões dos sete portais: Hash-Meir e o Guardião das Sete Portas”; “Rituais umbandistas: oferendas, firmezas e assentamentos”; e “Umbanda Sagrada: religião, ciência, magia e mistérios”.

 


Abaixo segue a versão gráfica, simplificada, das vertentes acima descritas, de acordo com seu surgimento, bem como uma possível fonte de interrelacionamento entre elas. As vertentes foram, ainda, relacionadas à antiga nomenclatura usada para diferenciar os tipos de Umbanda, que são:

  • Umbanda Branca – agrupa as Umbandas que seguem uma doutrina mais próxima do espiritismo-catolicismo, utilizando inclusive os livros da doutrina espírita como fonte doutrinária, onde os médiuns se vestem apenas de branco e onde não há uso de atabaque, não há gira para Exus, Pombagiras, Malandros e quaisquer entidades quimbandeiras e não há uso de sacrifícios de animais;
  • Umbanda Branca Esotérica – caso particular das Umbandas Brancas, pois além de possuírem as características acima, também fazem uso de práticas consideradas de cunho esotérico-ocultista (cristais, numerologia, mantras, meditação, etc);
  • Umbanda Cruzada – contração da antiga expressão Umbanda cruzada com Quimbanda, agrupa as Umbandas onde, além das giras para as entidades da Umbanda, também ocorre gira para as entidades que originalmente faziam parte apenas da Quimbanda (Exus, Pombagiras, Malandros e outras entidades quimbandeiras), caso nos quais os médiuns eram autorizados a usar roupas escuras (especialmente a preta) para incorporar essas entidades e era normal fecharem o Gongá com uma cortina durante o trabalho deles, sendo possível encontrar nessas Umbandas a prática do sacrifício de animais para oferendar as entidades quimbandeiras;
  • Umbanda Traçada – um caso particular da Umbanda Cruzada, seu nome é uma contração da antiga expressão Umbanda Cruzada Traçada com Candomblé, pois agrupa as Umbandas Cruzadas que possuem doutrinas, ritos e práticas originários das tradições africanas, principalmente aquelas oriundas dos diversos Candomblés, sendo possível encontrar, dentro delas, a prática do sacrifício de animais para os Orixás;
  • Umbanda Esotérica – um caso particular da Umbanda Cruzada, seu nome é uma contração da antiga expressão Umbanda Cruzada Esotérica, pois agrupa as Umbandas Cruzadas que também fazem uso de práticas consideradas de cunho esotérico-ocultista (cristais, numerologia, mantras, meditação, etc).

Importante ressaltar que a posição das vertentes no gráfico não possui nenhuma relação com questões de hierarquia superior ou inferior entre elas: foi apenas para facilitar a visualização das informações ali contidas.

"Esta imagem pertence ao Blog Registros de Umbanda"